Devanilson Álvares de Souza
Águas Lindas de Goiás
BRASIL
ABC DO AMOR E DA LINGUAGEM
Brasília – DF – Brasil
Dezembro de 2008
“Nem o espírito ama sozinho, nem o corpo: é o ser
humano, a pessoa, que ama como criatura unitária, de que fazem parte
do corpo e da alma”.
Papa Bento XVI
RESUMO
O Amor e a Linguagem se fazem presentes no Homem e o Homem está inserido
no Mundo. Segundo Platão, existem dois mundos ou duas realidades: a
inteligível e a sensível. Essa concepção platônica
é conhecida por Teoria das Idéias ou Teoria das Formas. O primeiro
mundo, o inteligível, é constituído de idéias
eternas, imutáveis e inatas. O segundo mundo, o sensível, ou
seja, o mundo empírico é o mundo percebido pelos sentidos, o
qual para Platão não passa de uma pálida reprodução
do mundo das Idéias. Além da cosmologia, também a antropologia
platônica é totalmente dualista. Platão desenvolve a noção
de que o homem está em contato permanente com os dois tipos de realidade:
a inteligível e a sensível. A partir Inspirado por O Banquete
é possível inferir uma concepção de Amor, sendo
ele o princípio originário de tudo. E inspirado pelo Evangelho
de São João reflito acerca da Linguagem, que igual ao Amor é
inteligível, perene, imutável, incorruptível e una. Logo,
podemos também dizer que a Linguagem é princípio originário
de tudo. Há então dois princípios? Não! Nesta
reflexão o Amor e Linguagem são atributos ao Deus judaico-cristão.
O Amor promove a unidade entre diversas pessoas de mesmo ou de diferentes
idiomas, tal como a Linguagem promove a unidade de diferentes palavras. As
paixões unem os diversos tipos de sentimentos, todavia esses sentimentos
mudam ao sabor do vento, igualmente são as palavras, elas mudam com
o tempo, devido aos fatores históricos e políticos, tal como
vemos hoje com o idioma português. Por tal motivo o Amor, como vimos,
é supra-sensível e imutável, portanto, não se
pode confundir o Amor com a Paixão. Do mesmo modo, não se pode
confundir Linguagem com Palavra. Tendo o Amor e a Linguagem as mesmas características,
concluo que ambos são divinos, ou melhor, Deus. E o Homem, por estar
em contato com inteligível e com o sensível, está também
em contato com o Amor e com as paixões, com a Linguagem e com as palavras.
Palavras - chave: Homem, Mundo, Amor, Linguagem, inteligível, sensível.
RESUMEN
El Amor y el Lenguaje están presentes en los seres humanos y el hombre esta en el mundo. Según Platón, hay dos mundos y dos realidades: la inteligible y la sensible. Este concepto se conoce como la teoría platónica de las ideas o teoría de las formas. El primer mundo, el inteligible, se compone de ideas eternas, inmutables y innatas. El segundo mundo, el sensible, es decir, el mundo empírico es el mundo percibido por los sentidos, para Platón es sólo una pálida reproducción del mundo de las ideas. Además de la cosmología, la antropología platónica es totalmente dualista. Platón desarrolló la idea de que el hombre está en contacto permanente con los dos tipos de realidad: la inteligible y sensible. Inspirado por “El Banquete” es posible inferir una concepción del Amor, que es el principio original de todo. E inspirado por el Evangelio de San Juan reflejo sobre el Lenguaje, que también es inteligible como el Amor, eterno, inmutable, incorruptible y una. Por lo tanto podemos decir también que el Lenguaje es origen de todo. Hay dos principios entonces? No! En esta reflexión el Amor y Lenguaje son los atributos del Dios judeo-cristiano. El amor promueve la unidad entre los distintos individuos de del mismo o de diferentes idiomas, como el Lenguaje promueve la unidad de las diferentes palabras. Las pasiones unen los distintos tipos de sentimientos, pero los sentimientos cambiar el sabor del viento, así también son las palabras, que cambian a lo largo del tiempo, debido a factores históricos y políticos, como vemos hoy con el idioma portugués. Por esta razón, el Amor como hemos visto, es supra sensible e inmutable, por lo tanto, no debe confundirse con el Amor pasión. Del mismo modo, no se puede confundir el Lenguaje con palabras. Una vez que el Lenguaje y el Amor tienen las mismas características, mi conclusión es que ambos son divinos, o mejor, Dios. Y como el hombre está en contacto con el inteligible y sensible, también está en contacto con el Amor y las pasiones, con el Lenguaje y con palabras.
Palabras - llave: Hombre, Mundo, Amor, Lenguaje, inteligible, sensible.
SUMÁRIO
RESUMO III
RESUMEN IV
INTRODUÇÃO 06
CAPÍTULO A – O HOMEM E O MUNDO 07
A.1 – O Mundo 07
A.2 – O Homem 08
CAPÍTULO B – O AMOR 12
B.1 – O Banquete do Amor 12
B.1.1 – Fedro, o primeiro orador: O Amor tem dois títulos: ADMIRAÇÃO
E LOUVOR AOS MORTAIS 13
B.1.2 – Pusânias, o segundo orador: DISTINÇÃO ENTRE
O AMORNOBRE E O AMOR VIL. 14
B.1.3 – Erixímaco, o terceiro orador: O AMOR É UNIVERSAL
15
B.1.4 – Aristófanes, o quarto orador: O AMOR EXIGE A PERFEIÇÃO
DO PRÓPRIO EU. 16
B.1.5 – Agatão, o quinto orador, AMOR É FELIZ E BELO 17
B.1.6 – Sócrates, o sexto orador: O AMOR É UM ITERMÉDIO
ENTRE DEUS E O HOMEM. 17
B.2 – O Amor: A divindade entre nós 19
B. 2.1 – Tipos de amores para os gregos: AGAPE, PHILIA E EROS 20
B.3 – Como o Amor foi e é visto ao longo dos tempos 24
B.4 – O Amor e a relação interpessoal 25
CAPÍTULO C – A LINGUAGEM 27
C1. – A Linguagem 27
C.2. – O Homem e a Linguagem 28
C.3 – A Linguagem é muito mais que meras palavras. 29
C. 4 – A relação entre o Amor e A Linguagem 32
CONCLUSÃO 37
BIBLIOGRAFIA 39
INTRODUÇÃO
Diversas pessoas de diferentes épocas e lugares já
escreveram, debateram e estudaram sobre o Amor e também sobre a Linguagem.
O resultado disso é o surgimento de diversos conceitos e mitos, os
quais fazem o Homem se perder diante de tantos referenciais. Confrontando
com tal problemática realizo aqui uma singela reflexão acerca
destes dois temas: o Amor e a Linguagem, para que deste modo se chegue a uma
noção de referencial absoluto, imutável, perene e seguro.
Mas que referencial é esse? A resposta ou pelo menos a proposta de
resposta será encontrada ao longo da leitura deste trabalho.
Partindo de conceitos já existentes a reflexão culminará
com uma analogia entre o Amor e a Linguagem, no entanto, como já dizia
Jaeger (2001, p. 725), “não é possível expor aqui
na totalidade os vários aspectos do tema”. O ponto de partida
deste estudo é a filosofia de Platão, de modo especial a sua
obra: O Banquete. No entanto, peço licença para utilizar a Bíblia,
livro sagrado dos cristãos, nesse estudo filosófico, porém
não no intuito de fazer proselitismo, mas para que melhor se compreenda
o que desejo expor acerca do Amor e da Linguagem. Os livros bíblicos
utilizados são Gênesis e o Evangelho de São João.
O título ABC não quer significar que o conteúdo abordado
aqui seja doutrinal, mas sim um processo reflexivo metodológico acerca
do Amor e da Linguagem. ABC quer dizer simplesmente que a presente monografia
é composta de três capítulos (“A”, “B”
e “C”), por este motivo é intitulada de ABC do Amor e da
Linguagem.
No primeiro capítulo, ou seja, no capítulo “A”,
abordo a concepção de Mundo e de Homem, de modo especial na
visão platônica. Pois somente o Homem ama e expressa o Amor e
a Linguagem. O Homem está presente no mundo, por este motivo é
necessário saber qual concepção de Mundo e de Homem.
Ainda no capítulo “A” procuro mostrar a Teoria das Idéias
platônicas, a qual explicita a existência de dois mundos: o sensível
e o inteligível.
No segundo capítulo, isto é, no capítulo “B”,
trago à tona a problemática do Amor de acordo com O Banquete,
onde os oradores, os convidados de Agatão elogiam, em forma de discurso,
o Amor. Apresento também três aspectos ou visões sobre
o Amor: eros, ágape e philia. Ainda no capítulo “B”,
apresento brevemente a concepção de Amor ao longo dos tempos.
Finalmente, o capítulo “C”, terceiro e último capítulo,
trato de modo especial a reflexão acerca da Linguagem, principalmente
numa visão judaico-cristã. E somente no fim deste capítulo
encerro a reflexão com a analogia entre o Amor e a Linguagem.
CAPITULO A
O HOMEM E O MUNDO
A.1 O MUNDO
É necessário que se faça primeiramente um breve estudo
acerca do Mundo e depois do Homem, principalmente de acordo com a filosofia
de Platão , para que se possa compreender a analogia entre o Amor e
a Linguagem que proponho neste trabalho. O Amor e a Linguagem se fazem presentes
no Homem e o Homem está inserido no Mundo. Mas o que é o Mundo
para Platão? E o que é o Homem? Somente após uma compreensão
de Mundo e de Homem é que se compreenderá a concepção
de Amor e de Linguagem nesta monografia.
Etimologicamente a palavra mundo vem do termo grego cosmos (??sµ??),
que em latim passou a ser chamado de mundus. Pelo termo mundo se entende a
“totalidade das coisas existentes [qualquer que seja o significado de
existência]” (Abbagnano, 2003, p. 687). “Diz-se que Pitágoras
foi o primeiro a chamar o mundo de cosmo. Para ressaltar sua ordem, o certo
é que essa é a interpretação desse conceito que
prevalece na filosofia grega. É aceita por Platão e Aristóteles”
(Abbagnano, 2003, p. 687).
Segundo Platão, existem dois mundos ou duas realidades: a inteligível
e a sensível. Essa concepção platônica é
conhecida por Teoria das Idéias ou Teoria das Formas . O primeiro mundo,
o inteligível, é constituído de idéias eternas,
imutáveis e inatas. Este primeiro é alcançável
somente pela razão e pela idéia. O segundo mundo, o sensível,
ou seja, o mundo empírico, o qual é percebido pelos sentidos
e que para Platão não passa de uma pálida reprodução
do mundo das Idéias. Esta seria a concepção de mundo
para Platão: o mundo sensível e o mundo inteligível.
Nota-se ai uma dualidade.
Somente se alcança a realidade inteligível através do
pensamento e apenas o pensamento, e não os sentidos, pode alcançar
a verdade última das coisas, segundo Platão. A realidade inteligível
guarda uma idéia perfeita de cada coisa. Os sentidos apenas reconhecem
no meio da multiplicidade dos seres materiais. As primeiras e mais importantes
idéias, base de todas as demais, são as idéias do Belo,
do Bom, do Verdadeiro e do Justo.
Giovanni Reale (1990, p. 137) diz que Platão denominou essas causas
de natureza não-física (realidades inteligíveis) recordando
principalmente aos termos Idéia (?jd?a) e Eidos (e?j~d??), que significa
“forma”. Reale diz ainda, que as idéias de que Platão
falava não são simples conceitos ou representações
puramente mentais, mas representam “entidades”, substâncias.
As idéias são, em suma, não simples pensamentos, mas
aquilo que o pensamento pensa quando liberto do sensível constituem
o verdadeiro ser, o ser por excelência.
As idéias são as essências das coisas, ou seja, aquilo
que faz com que cada coisa seja aquilo que é. Platão utilizou
também o termo paradigma, para indicar que as idéias representam
o modelo permanente de cada coisa, isto é, como cada coisa deve ser.
É nessa temática metafísica de mundo ideal e inteligível
que desejo mostrar a analogia entre o Amor e a Linguagem. Mas antes é
necessário que se reflita também acerca do Homem, visto que
ele se faz presente no Mundo.
A.2 O HOMEM
No início do quarto discurso em O Banquete, Aristófanes diz
que antes de se falar do Amor é necessário primeiro que se compreenda
a natureza humana (Platão, 1983, p. 22). Portanto, acredito ser necessário
que se faça brevemente uma reflexão acerca da concepção
de Homem, principalmente de acordo com o conceito platônico. Pois somente
o homem é capaz de amar e somente ele é dotado de Linguagem,
isto é, do ?????.
Etimologicamente a palavra Homem vem do termo grego anthropós (a[????p??)
que na forma latina corresponde a homo, daí vem a expressão
homo sapiens, traduzindo, homem racional ou homem sábio. Antes de prosseguir
com a reflexão é importante saber que “os questionamentos
e discussões sobre que seja o homem são antigas, tão
antigas quanto o próprio homem” (Silva, 2007, p. 28).
A concepção de Homem floresce na cultura grega nos meados dos
séc. VIII e VII antes de Cristo, no entanto, foi a partir do séc.
V a.C., com Sócrates, que ocorre um estudo mais fecundo e racional
acerca da antropologia, ou seja, começaram deixar de lado as explicações
mitológicas sobre o homem. Os pré-socráticos já
começaram deixar de lado a mitologia para explicar a existência
do mundo, utilizando para tal as explicações dos fenômenos
físicos. No entanto, o pensamento de muitos filósofos antigos,
inclusive o de Platão, está repleto de mitos, pois o homem grego
antigo era muito religioso.
Para Sócrates, “o humano só tem sentido e explicação
se referido a um princípio interior ou a uma dimensão de interioridade
presente em cada homem e que ele designou justamente com o antigo termo de
alma (psyché), mas dando uma significação essencialmente
nova” (Vaz, 1991, p. 28). Sócrates vê a alma como a sede
da areté (excelência ou virtude), a qual orienta a vida humana
segundo o justo e o injusto. Seria, pois a alma a essência do homem,
para Sócrates.
No pensamento grego acreditava-se que havia uma oposição entre
o mundo dos deuses (?e??) e mundo dos mortais (?a?at?í). Creio que
por isso a antropologia platônica é totalmente dualista. Platão
desenvolve a noção de que o homem está em contato permanente
com dois tipos de realidades: a inteligível e a sensível. O
homem, através da alma, participa do inteligível e, através
do corpo, participa do sensível. Por isso, para Platão, o homem
é uma dualidade entre o corpo e alma. E apenas para se ter uma noção
de concepção de homem na Idade Média cito Santo Tomás
de Aquino, o qual diz que o homem não é uma dualidade, mas sim
um composto de corpo e alma (Silva, 2007, p. 18).
Retomemos o pensamento na Idade Antiga. Nessa dualidade platônica, o
corpo representa o sensível, ou seja, a matéria, ao contrário
a alma representa o inteligível, isto é, o imaterial. Esse imaterial
é o divino que o homem possui, ao passo que o corpo é, na visão
dos gregos antigos, a prisão da alma.
No tocante entre o corpo e alma, Platão explicita que a união
entre o corpo e a alma não é apenas acidental, mas um castigo
para a alma, por isso o corpo é tido como uma prisão. Nessa
dualidade radical de Platão entre a alma e o corpo, o filósofo
grego despreza este último em favor da thorein, isto é, da contemplação
de Deus, que se dá pelo desapego de tudo aquilo que é físico.
Por meio da relação de sua alma com a alma do mundo, o homem
tem acesso ao mundo das Idéias e aspira ao conhecimento e às
idéias do Bem e da Justiça. A partir da contemplação
do mundo das Idéias, o Demiurgo , tal como Platão descreveu
no Timeu, organizou o mundo sensível. Não se trata de uma criação
ex nihilo, isto é, do nada, como no caso do Deus judaico-cristão,
pois o Demiurgo não cria a matéria nem é a fonte da racionalidade
das Idéias por ele contempladas.
O homem, por ser “modelado” ou “criado” por Demiurgo,
restringe sua ação somente ao mundo material, por isso no mundo
das Idéias o homem não pode transformar nada, pois este já
é perfeito. Fica claro, portanto que, para Platão, o Homem é
a dualidade entre corpo e alma. Sendo que a alma está aprisionada ao
corpo.
Ainda na cultura da antiga Grécia, havia duas imagens fundamentais
de homem. Na primeira imagem o homem é visto como animal que fala e
discorre (zoon logikón) e a na segunda imagem o homem é visto
como animal político (zoon politikón). Segundo Padre Vaz, somente
enquanto dotado do logos o homem é capaz de participar da vida política
(bios politikós) (Vaz, 1998, p.27).
E a respeito do Amor, os gregos o viam como um deus. O Amor é que faz
com que os homens anseiem em serem bem aventurados (eudaimones), a participar
da imortalidade, do contrário eles serão infelizes (talaíporoi).
O Amor faz o homem modificar seu agir (práxis) moral e político.
Platão está firmemente convencido de que todo homem quer o Bem,
ainda que por vezes se engane na compreensão do que é o Bem.
O Bem (O Amor) é que motiva o homem como uma força propulsora
que sempre o estimula a caminhar em direção a si próprio,
à sua verdadeira natureza, sedenta do belo, do bem e da verdade.
Até aqui tratei do estudo do Mundo e do Homem para que se compreenda
e que fique claro a existência de duas realidades para Platão:
o sensível e o inteligível, que estão prestes tanto no
Homem quanto no Mundo. Estando o homem inserido no mundo sensível está
sujeito às paixões e as mudanças, mas também é
um ente que aspira a imortalidade.
A partir de Platão o estudo acerca do homem se tornou muito vasto,
portanto seria muito extenso tratar aqui acerca de toda problemática
em torno da antropologia e das críticas feitas a Platão. É
necessário que se entenda que ao olhar para a filosofia da Grécia
Antiga, é importante que se coloque os óculos da antiguidade
e não devemos condenar Platão a partir de uma ótica medieval,
moderna ou contemporânea, até por que graças a ele vários
estudos, debates e teorias surgiram.
Enfim, agora que se tem uma noção de Mundo e de Homem não
será difícil entender que o Amor é o inteligível
e que se manifesta no sensível de diversos modos, ao passo que a paixão
é o sensível e está em busca do inteligível. No
entanto há uma dualidade entre o Amor e a paixão. Igualmente
a Linguagem é o inteligível que se faz presente de diversas
formas no sensível, ao contrário a palavra é o sensível
que busca inteligível. E por estar em contato com inteligível
e com o sensível, o Homem está também em contato com
o Amor e com as paixões, com a Linguagem e com as palavras, como veremos
mais adiante.
CAPITULO B
O AMOR
B.1 O BANQUETE DO AMOR
Na existência humana a solidão sempre se fez presente, talvez
por isso, o homem tenha inventado o Amor, ou quem sabe, o Amor que criou o
homem? Afinal de contas, que é o Amor? Como foi dito anteriormente,
muitos já discutiram esse assunto, por isso talvez resolver essa problemática
ou definir o Amor seja impossível, mas vivê-lo é digno
e nobre de quem é humano.
Talvez de fato seja impossível definir o Amor, mas inspirado pelo O
Banquete é possível arriscar inferir mais uma concepção
de Amor entre tantas outras já existentes. O Banquete é um livro
escrito por Platão, onde o narrador é Apolodoro. Apolodoro encontra
um companheiro que pede para que conte, em detalhes, de que modo foi realizado
o banquete (symposion, isto é, jantar coletivo) promovido por Agatão
(??????, que significa “de bravos” ??a???) em sua casa. Apolodoro
inicia a narração contando ao seu companheiro aquilo que Aristodemo
havia contado. Aristodemo encontrou Sócrates banhado e calçado,
raro de vê-lo nesses trajes e vão juntos à casa de Agatão,
onde ocorreu o banquete. Aristodemo foi sem convite e Sócrates diz
que “a festins de bravos, bravos vão livremente” (Platão,
1983, pp. 8-9), fazendo assim um elogio a Aristodemo e encorajando-o a ir
ao banquete.
Em O Banquete, Agatão, poeta trágico de grande mérito,
um dia após sua magnífica apresentação teatral,
reúne os seus amigos mais íntimos, que por sinal são
ilustres representantes da cultura grega antiga, e lhes oferece em sua casa
um banquete para comemorarem seus triunfos teatrais. Esses seus amigos fazem
elogios ao Amor em forma de discursos, graças a idéia de Fedro
e a proposta de Erixímaco. Erixímaco conta a todos a queixa
que Fedro lhe fez, pois os poetas tendo por missão cantar hinos aos
deuses esqueceram-se do Amor. “Fedro freqüentemente me diz irritado:
- Não é estranho, Erixímaco, que para os outros deuses
haja hinos e peãs feitos pelos poetas, enquanto que ao Amor, todavia,
um deus tão venerável e tão grande, jamais um só
dos poetas que tanto se engrandeceram fez sequer um ecônomo?”
(Platão, 1983, p. 11).
Erixímaco atende a queixa de Fedro e propõe a todos que o discurso
seja acerca do Amor, mas que Fedro, por ser o pai da idéia, inicie
o discurso (Platão, 1983, pp. 11-12). No entanto, não é
para fazer qualquer tipo de discurso ou realizá-lo de qualquer modo,
todos os presentes, da esquerda para a direita, devem fazer um discurso de
louvor ao Amor, o mais belo discurso que puder, e que Fedro inicie (Platão,
1983, p. 12).
Vejamos, pois os pontos fundamentais do discurso de cada um dos oradores que
O Banquete nos traz. O primeiro dos oradores a discursar foi Fedro, um brilhante
retórico, Pausânias foi o segundo orador, em seguida o médico
Erixímaco, depois os poetas Aristófanes e Agatão e, por
fim, Sócrates, que, tomando a palavra, atribui o que vai dizer a uma
sacerdotisa de Mantinéia, Diotima.
B.1.1 FEDRO, O PRIMEIRO ORADOR: O AMOR TEM DOIS TÍTULOS:
ADMIRAÇÃO E LOUVOR AOS MORTAIS
Fedro, o pai da idéia de celebrar o Amor, foi o primeiro dos oradores,
apresenta o Amor como deus incomparável, admirado entre todos os homens
e deuses e por ser o Ser mais antigo, não tem genitores: “Assim,
pois, eu afirmo que o amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado
e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade
entre os homens em sua vida como após a morte”. (Platão,
1983, p. 14).
Além do título de admirado tanto pelos deuses como pelos homens,
Fedro, atribui também ao Amor o título de mais honrado e o mais
antigo dentre os deuses, por isso, o Amor, é a causa dos maiores bens.
O Bem, para Fedro, é o bom amante ser bem amado por seu amado. “Não
sei eu, com efeito, dizer que haja maior bem para quem entra na mocidade do
que um bom amante, e para um bom amante, do que o seu bem amado.” (Platão,
1983, p. 13).
Fedro diz ainda que o Amor deve dirigir a vida dos homens. Em A República
de Platão é possível observar o anseio, deste magnífico
filósofo, em constituir uma sociedade perfeita e justa. Uma sociedade
de amantes e de amados será mais forte nas guerras, pois aquele que
ama luta com mais vigor, faz com que o amante defenda sua cidade por causa
do amado, pois somente quem ama consente em morrer pelo amado. E somente por
meio do Amor, o mais honrado e o mais poderoso dentre os deuses, diz Fedro,
pode-se alcançar a virtude e a felicidade, como na vida como após
a morte. (Platão, 1983, p 14). Fedro mostra o exemplo de Alceste ,
filha de Pélis, a qual foi a única que consentiu em morrer pelo
marido, embora ele tivesse pai e mãe (Platão, 1983, pp. 13-14).
Diante do amado, o amante procura se afastar de tudo que é feio porfiando
entre si no apreço à honra, em defesa da cidade e da justiça.
Quem ama tem vergonha do que é feio e apreço do que é
belo.
Fedro conclui seu discurso confirmando o que disse no início, dizendo
que o amor é o mais antigo dos deuses, o mais honrado e o mais poderoso
para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens,
tanto em sua vida como após sua morte (Platão, 1983, p.14).
B.1.2 PAUSÂNIAS, O SEGUNDO ORADOR: DISTINÇÃO ENTRE O AMOR NOBRE E O AMOR VIL.
Pausânias, o segundo orador, inicia seu discurso dirigindo
a palavra a Fedro e critica-o dizendo: “Não me parece bela, ó
Fedro, a maneira como nos foi proposta o discurso, essa simples prescrição
de elogio ao Amor. Se com efeito, um só fosse o Amor, muito bem estaria,
na realidade porém, não é ele um só [...], porém
são dois os Amores [...]: O Amor de Afrodite Pandêmia e o de
Urânia” (Platão, 1983, pp. 14-15).
O grande retórico, Pausânias, tenta precisar o conceito de amor
numa definição mais concreta, sem deixar de lado a mitologia.
Ele diz que não há apenas um Amor, mas dois tipos de amores
ou duas naturezas: o amor nobre e o amor vil.
O amor vil, para Pausânias, é aquele que é regido pelo
instinto e que tende a uma simples satisfação dos apetites sexuais,
este é o Amor popular, o Amor de Afrodite. E é o Amor de Afrodite
que os vulgares amam, eles amam mais o corpo que a alma, tem em mira apenas
em efetuar o ato sem se preocupar se é decente ou não. Pausânias
diz que um mau amante é aquele que ama mais o corpo que a alma, pois
ele não é constante, por amar um objeto que também não
é constate (Platão, 1983, p. 17).
Este Amor, o vil, é proveniente da deusa Afrodite, que é mais
jovem que Urânia. De Urânia provém o Amor nobre, aquele
que tem origem divina, tende ao Bem e a perfeição do amado.
Este segundo Amor pretende ser uma força educadora, não apenas
de desviar os amantes das ações vis, mas em guiá-los
a virtude.
Reportando ao Amor de Urânia, assim conclui Pausânias o seu discurso:
“Este é o Amor da deusa celeste, ele mesmo celeste e de muito
valor para a cidade e os cidadãos, porque muito esforço ele
obriga a fazer pela virtude tanto ao próprio amante como ao amado,
os outros, porém são todos da outra deusa [Afrodite], da popular”
(Platão, 1983, pp. 18-19).
B.1.3 ERIXÍMACO, O TERCEIRO ORADOR: O AMOR É UNIVERSAL
Erixímaco, médico de grande respeito, o terceiro
orador, discursa no lugar de Aristófanes, visto que este teve uma crise
de soluço e não pode falar (Platão, 1983, p. 19). Erixímaco
adota preliminarmente a distinção feita por Pausânias,
ou seja, de algo concreto para depois estender e ampliar a extensão
do conceito. Erixímaco parte da observação da natureza
(fi[s??), isto é, da física e não da mitologia para se
chegar ao metafísico, mas isso não o impede de louvar o Amor
como sendo um deus poderoso.
Erixímaco amplia e estende o alcance do Amor, não o limita somente
ao homem, como fizera os oradores anteriores. Ele defende a idéia de
que o Amor seja universal. Segundo ele, o duplo amor não reside apenas
nos homens, mas nos animais, nas plantas e em todos os seres, ou seja, em
todo o universo. O Amor seria, portanto, universal.
Erixímaco, com efeito, começou seu discurso através da
medicina, por isso acredita-se que ele explica satisfatoriamente a existência
de dois amores em função dos dois estados antagônicos
no organismo, o mórbido e o sadio, no interior de cada um dos quais
há um amor diferente. Erixímaco, ao explicar que a arte da medicina
visa à transformação do amor mórbido no sadio,
ele prolonga essa explicação com o comentário, aparentemente
pertinente, de que os estados mais hostis um ao outro devem no corpo, pela
presença do amor, tornarem-se amigos e assim realiza a saúde.
Erixímaco defende ainda a idéia de “o Eros [Amor] ser
o princípio do devir do mundo físico” (Jaeger, 2001, p.
730), por isso há a distinção dos contrários,
pois estão sempre em mudança, mas é na harmonia que existe
a essência do Amor, para Erixímaco.
Este médico faz do Amor uma potência universal, pois sua ação
está em todas as esferas do cosmo e ele é fonte de toda verdadeira
harmonia.
B.1.4 ARISTÓFANES, O QUARTO ORADOR: O AMOR EXIGE A PERFEIÇÃO DO PRÓPRIO EU.
O quarto orador foi Aristófanes, o famoso comediógrafo
ateniense, que expressa a sua original concepção de Amor sob
a forma de um mito, digno de sua prodigiosa fantasia cômica, mas volta
também seu olhar para a antropologia, ou seja, para o homem, pois pretende
explicar o misterioso poder do amor sobre os homens.
Mas antes de começar seu discurso Aristófanes dirige a palavra
à Erixímaco dizendo que discursará diferente dele e de
Pausânias (Platão, 1983, p. 22). E aos olhos de Aristófanes
parece que os homens não perceberam o poder do Amor, pois se o percebessem
os maiores templos e altares lhes preparariam, e os maiores sacrifícios
lhe fariam (Platão, 1983, p. 22).
Aristófanes inicia o discurso dizendo que o Amor é “o
deus mais amigo do homem” (Platão, 1983, p. 22). E se falando
do homem, Aristófanes fala da natureza humana. Ele diz que o estado
primitivo do gênero humano constava de três sexos: “Em primeiro
lugar eram três gêneros da humanidade, não dois como agora
o masculino e o feminino, mas também havia mais um terceiro, comum
a estes dois, do qual resta agora um nome, desaparecida a coisa; andrógino
era então um gênero distinto, tanto na forma como no nome comum
aos dois, ao masculino e ao feminino, enquanto agora nada mais é que
um nome posto em desonra.” (Platão, 1983, p. 22).
Antes ser dividido em dois pelos deuses, o homem gozava de grandes faculdades,
dais quais faziam com que os deuses tivessem medo de que ele abalasse o céu
com sua força titânica, por isso o homem foi dividido em duas
partes: a masculina e a feminina. O Amor nasce do anseio de o homem voltar
a sua totalidade, por isso une-se com a sua metade correspondente. Sendo assim,
“o Amor por outro ser humano é focalizado à luz do processo
de aperfeiçoamento do próprio eu. Esta perfeição
só é atingível na relação com um tu”
(Jaeger, 2001, p. 732). Por isso, o amor constitui uma exigência de
perfeição do próprio eu.
Observa-se que Aristófanes apresenta o Amor como que uma busca por
aquilo que lhe foi tirado e que se pretende voltar a encontrar. É uma
constante busca de um outro, para que assim possa se completar. Acredito que
dessa forma “o Eros representa um anseio por qualquer coisa que não
se tem e se deseja ter” (Jaeger, 2001, p. 735).
Analisando novamente o início do discurso de Aristófanes ele
diz que os homens parecem não ter percebido o poder do amor, pois se
tivessem notado os maiores templos e altares seriam dedicados a ele, pois
ele é o deus mais amigo do homem (Platão, 1983, p. 22). Vemos,
por fim, que o Amor é visto como um deus que é amigo dos homens
e Platão aborda bem mais a fundo a questão da amizade em Lísis
.
B.1.5 AGATÃO, O QUINTO ORADOR: AMOR É FELIZ E BELO
O quinto discurso foi o de Agatão. Ele diz que todos
os que falaram antes dele pareciam que não era a um deus que elogiavam,
mas aos homens que felicitavam pelos bens de que o deus lhes é causador
(Platão, 1983, p. 27).
Para este enfatuado poeta trágico o Amor é o mais feliz e o
mais formoso, é o melhor entre os deuses. É jovem, fino e delicado
e reside em locais floridos e perfumados. Nunca é coagido, pois seu
reino é de uma vontade livre e pura. Possui todas as virtudes: a justiça,
a prudência, a valentia e a sabedoria. É um poeta admirável
que ensina os outros a sê-lo. Desde que o Eros pousou no Olímpio,
o trono dos deuses passou do terrível ao belo. Foi ele quem ensinou
sua arte para maior parte dos mortais.
Agatão conclui seu discurso dirigindo a palavra a Fedro dizendo que
o Amor, primeiramente por ser em si mesmo belo e o melhor, depois é
que é para os outros a causa de outros tantos bens (Platão,
1983, p. 29).
B.1.6 SÓCRATES, O SEXTO ORADOR: O AMOR É UM INTERMÉDIO ENTRE DEUS E O HOMEM.
O último a discursar foi Sócrates, ele faz
uma recordação da sacerdotisa Diotima. Assim Sócrates
apresenta de modo diferente de todos os oradores o seu discurso e rompe radicalmente
com o discurso de Agatão.
Sócrates conta aos convivas a conversa que teve com Diotima acerca
do Amor. Portanto é Diotima, na pessoa de Sócrates, que mostra
o que seria o amor. O amor, ensina Diotima, não é belo nem feio,
não é pobre nem rico, não é sábio nem ignorante,
não é mortal nem imortal, não é homem nem deus,
mas sim o intermédio e no cume de tudo se encontra o belo (Jaeger,
2001, p. 736). O amor é um daimon, ou seja, é um “gênio
que está entre um deus e um mortal” (Platão, 1983, p.34).
Então podemos nos perguntar: qual é o poder do amor? Diotima
responde, que o amor tem o poder de:
“interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses, de uns as súplicas e os sacrifícios, e dos outros as ordens e as recompensas pelos sacrifícios, e dos outros as ordens e as recompensas pelos sacrifícios; e como está no meio de ambos ele os completa, de modo que o todo fica ligado todo a si mesmo. Um deus com homem não se mistura, mas é através desse ser que se faz todo o convívio e diálogo dos deuses com os homens, tanto quando despertos como quando dormindo, e aquele que em tais questões é sábio é um homem de gênio , enquanto o sábio em qualquer outra coisa, arte ou ofício, é um artesão. E esses gênios, é certo, são muitos e diversos, e um deles é justamente o Amor” (Platão, 1983, pp. 34-35).
Sócrates, talvez impelido pela curiosidade, pergunta a Diotima qual a origem do amor, qual são os genitores do amor. E Diotima explicou que:
“Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses, e entre os demais se encontrava também o filho de Prudência, Recurso. Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza, e ficou pela porta. Ora Recurso, embriagado com néctar (pois vinho ainda não havia) foi ao jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando em sua falta de recurso engendrar um filho de Recurso deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor. Eis porque ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela. E por ser filho o Amor de Recurso e de Pobreza foi esta a condição em que ele ficou. Primeiro, sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a necessidade. Segundo o pai, porém, o Amor é insidioso com que é belo e bom, é corajoso, decidido e enérgico, caçador, sábio e cheio de recursos. Não é mortal nem imortal (Platão, 1983, p. 35).
De acordo com a a narrativa de Diotima é possivel
inferir que o Amor faz com que o homem participe do mundo dos deuses, ou seja,
da divindade, já que ele é o intermédio entre os deuses
e os homens. Deste modo o homem está sempre em constante aspiração
a felicidade (e?jda?µ???Èa). Assim a vontade humana sempre tende
ao bem, pois o homem nunca pode desejar o que não considera seu bem.
Por fim, para Platão, “o amor é o compêndio da aspiração
humana ao Bem” (Jaeger, 2001, p. 738).
B.2 O AMOR: A DIVINDADE ENTRE NÓS
Observando todos os discursos dos oradores de O Banquete
podemos inferir que o Amor de fato seja uma divindade e que dele emana todos
os bens. E o Amor está sempre relacionado ao Homem, pois somente ele
(o Homem) pode amar e se sentir amado.
O Banquete não omite que mesmo sendo uma divindade o Amor acabou sendo
deixado de lado, desvalorizado e esquecido pelo Homem. Sócrates concordando
com a exposição de Fedro a respeito do Amor como um deus, mobiliza
aos outros membros do banquete a prestar homenagens ao Amor, em forma de disputa.
São inúmeros elogios, alguns relatando o surgimento do Amor,
como já foi relatado.
Hesíodo vai dizer que o primeiro a existir foi o caos, depois a terra
com seu vasto peito, fundamento de tudo, eterno e firme; veio em seguida o
Amor. Os testemunhos a respeito do Amor são muitos, assim como muitas
são as formas de interpretar sua origem. Mas uma coisa é de
se concordar: o Amor é realmente uma divindade entre os antigos. Sendo,
pois o Amor uma divindade na concepção platônica, ele
pode trazer inúmeros benefícios. Sem o Amor é impossível
a um povo ou a um indivíduo a realização de feitos grandiosos
e belos.
Somente os que amam estão dispostos a darem suas vidas pelos seus.
Isso não cabe somente aos homens, mas inclusive às mulheres.
Alceste é símbolo da mulher que é capaz de dar sua vida
por amor (Platão, 1983, pp.13-14). Os deuses da mitologia grega tinham
grande apreço ao zelo pelo Amor e a coragem que o Amor infunde nas
pessoas.
O Amor é a força propulsora que se converte em educadora fazendo
subir do inferior ao superior. Esta evolução tem início
na juventude, com a admiração da beleza física de cada
ser humano. Mas a beleza de um corpo é irmã gêmea da beleza
dos outros corpos, fazendo assim com que o verdadeiro discípulo do
amor ame a beleza em todos, pois vai ver neles uma única beleza presente
em todos os corpos. Vemos, portanto que há uma beleza espiritual que
é mais que uma admiração dos corpos. Reconhecendo isso
o amante estará livre das paixões, ou melhor, saberá
dominar e controlar as paixões, não se lançando em ações
vis. Pois a paixão também é própria do ser humano.
Passando por todos esses degraus, finalmente poderemos contemplar a beleza
divina, desligada de qualquer relação com o sensível.
Diotima definiu a essência do Amor como a aspiração a
apropriar-se para sempre do Bem (Platão, 1983, p. 37). A idéia
de Bem ocupa lugar central no pensamento platônico, para onde um dia
a alma pretende retornar: ao Bem.
B.2.1 TIPOS DE AMORES PARA OS GREGOS: AGAPE, PHILIA E EROS
Anteriormente (em A2) afirmei que, por meio do Amor, o Homem participa da imortalidade. Vejamos, pois de que modo ele participa e vejamos também como os gregos enxergavam o Amor:
“Quando a comunidade sofre de uma doença orgânica que lhe afeta o conjunto ou é destruída, a obra da sua reconstrução só pode partir de um grupo reduzido, mas fundamentalmente são, de homens de idênticas idéias, o qual sirva de célula germinal para um novo organismo, é sempre este o significado da amizade (f???Èa) para Platão” (Jaeger, 2001, 718).
A comunidade humana vai desde as formas fundamentais e simples
da vida familiar até os diversos tipos de Estado.
Os gregos no intuito de tentar entender o Amor, pedagogicamente, o dividiram
em três partes, ou melhor, utilizaram três conceitos diferentes:
e[??? (Eros), f???Èa (Philia) e aj??p? (Ágape). Philia é
o Amor relacionado à amizade. A junção da expressão
grega f???Èa com a expressão grega s?f?a (sophia – sabedoria)
da origem a palavra f???s?f?a (filosofia – philos + sophia) que quer
dizer amor à sabedoria, portanto, filósofo é aquele que
ama o saber.
O Ágape também é uma da diversas palavras gregas para
se referir ao Amor. A palavra foi usada de maneiras diferentes por uma variedade
de fontes contemporâneas e antigas, incluindo os autores da Bíblia.
Muitos pensaram que esta palavra representa o amor divino, incondicional,
com auto-sacrifício ativo, pela vontade e pelo pensamento. Os filósofos
gregos nos tempos de Platão e outros autores antigos usaram o termo
para denotar o amor a um esposo ou a uma família, ou a afeição
para uma atividade particular, em contraste com philia, uma afeição
que poderia ser encontrada entre irmãos ou a afeição
assexuada, e eros, uma afeição de natureza sexual.
De modo especial a expressão ágape é retomada com um
significado mais profundo no Evangelho de João para exprimir a relação
entre Jesus e seus discípulos. Mas o uso Cristão de ágape
vem diretamente dos Evangelhos Canônicos. Quando perguntado qual era
o maior mandamento, Jesus disse: "Amai (ágape) ao senhor vosso
Deus com todo vosso coração e com toda vossa alma e com toda
vossa mente”. Este é o primeiro e maior de todos os mandamentos.
E o segundo é: "Amai (ágape) vosso próximo como
a vós mesmos. Toda a lei e os Profetas residem nestes dois mandamentos"
(Mateus 22: 37-41). No Sermão da Montanha Jesus diz: "Ouvistes
dizer: 'amarás (ágape) teu irmão e odiarás teu
inimigo', mas eu vos digo: amai (ágape) vossos inimigos, fazei o bem
aos que vos odeiam, e orai por aqueles que vos perseguem e maltratam, pois
deste modo sereis filhos de vosso Pai nos céus, aquele que faz com
que o sol se levante o mau e sobre o bom, e faz chover sobre o justo e sobre
o injusto. Se amais apenas aqueles que vos amam, que recompensa tereis?".
O Apóstolo Paulo descreve o amor como segue: "O amor (ágape)
é paciente, o amor é amável. Sem inveja, ele não
tem ostentação, ele não é orgulhoso. Não
é rude, ele não é interessado, ele não se irrita
facilmente, ele não mantém nenhum registro dos erros. O amor
não se deleita com o mal mas rejubila com a verdade. Protege sempre,
confia sempre, sempre tem esperança, sempre persevera. O amor nunca
falha.” (I Coríntios, 13, 4:8).
O Philia e o Ágape estão intimamente ligados a ponto de serem
confundidos. Ambos se diferenciam muito do Amor Eros. O Eros é um forte
impulso dos desejos, principalmente o sexual, e das vontades que impele o
homem a perpetuar a espécie, desejando assim a imortalidade.
Há várias mitologias gregas acerca de Eros, deus do Amor. A
mais famosa é a que representa como um menino travesso, caprichoso,
dotado de asas e armado de arco e flechas, é o mais jovem dos deuses.
Ele personificava todos os sentimentos ligados ao amor e ao desejo, principalmente
a paixão física. As flechas que atira têm a propriedade
de deixar o coração dos mortais e dos imortais completamente
inflamados de amor.
Eros recebe genealogias diferentes, ora ele é filho de Ilitia, ou de
Iris, ou de Hermes e Artemis. A tradição preponderante o faz
filho de Hermes e de Afrodite. Mas os mitólogos, que distinguem várias
Afrodites, também distinguem vários amores: Eros, filho de Hermes
e de Afrodite Urânia, Eros Antéros [Amor Contrário ou
Recíproco], filho de Ares e Afrodite, filha de Zeus com Dione, Eros,
filho de Hermes e de Ártemis, filha de Zeus e de Perséfone.
As pinturas de Pompéia tornaram esse tipo de amor muito popular: representado
como uma criança. Mas o que é constante é o fato de,
sob a aparência de inocente, ser um deus de grande poder, capaz de ferir
cruelmente.
Já Platão descreve que o amor foi concebido num festim dos deuses,
em virtude do nascimento de Afrodite (Platão, 1983, p. 35). A noção
de Amor contida nesse mito platônico enquadra-se perfeitamente ao amor
humano, cujas manifestações revelam um complexo antitético
de pobreza e de riqueza, de dignidade e de baixeza, de sabedoria e de ignorância.
Mas isso não se pode aplicar a Deus, o sumo Bem. Pois, para Platão,
o amor é essencialmente indigente: tende a um bem que ainda não
possui, enquanto Deus de nada precisa. Assim, o amor, segundo a mitologia
(Recurso e Pobreza) é somente um elo entre os deuses e os homens. No
entanto, mais adiante quero mostrar que o Amor não é mais visto
como um elo, e sim como o próprio Deus, especialmente na visão
judaico-cristã.
O ser humano sempre teve a tendência de se afastar de Deus, isto é,
do verdadeiro Amor e ao mesmo tempo o busca. O Homem vem se afastando de Deus
em busca somente das verdades convencionais baseadas na diplomacia e opiniões,
pois o homem passa apenas a se admirar diante do espelho, ou seja, deixa de
lado o inteligível para se prender ao sensível. Por estar preso
ao sensível, o Homem se inclina cada vez mais em direção
ao Eros de modo desregrado, Amor que sempre esteve presente na vida do ser
humano e na sociedade. Esse Amor alimenta os apetites carnais, isto é,
sexuais. Hoje vemos explicitamente nos comerciais de multimídias, especialmente
nos de TV, uma falsa valorização do corpo, ou seja, do sensível,
onde o e[??? (Eros) se destaca de modo absoluto, ofuscando o f???Èa
(Philia) e o aj??p? (Ágape). O Eros é Amor, mas “o Amor
não é um sentimento apenas. Os sentimentos vão e vêm.
O Sentimento pode ser uma maravilhosa centelha inicial do Amor, mas não
é a totalidade do Amor” (Bento XVI, 2006, p.31).
Na República, Platão mostra que o Eros interfere no funcionamento
da parte apetitiva da alma. Sua atuação é destacada como
negativa, pois vem associada à tirania dos sentidos. Ainda em A República,
Platão divide a alma humana em três partes: a racional, a irascível
e a irracional ou apetitiva. Cada uma deve exercer a atividade que lhe é
própria. À parte racional, que é superior, cabe comandar
e sua qualidade específica é a sabedoria. À parte irascível
compete auxiliar a parte racional, de tal forma que suas ordens sejam sempre
obedecidas; a qualidade que a distingue é a coragem. À parte
apetitiva cabe obedecer aos comandos da parte racional e a qualidade que lhe
cabe é a temperança. Se cada parte exerce sua função,
a alma está em harmonia, é justa e saudável. Quando ocorre
de alguma parte desviar-se de sua tarefa, a alma adoece: a desordem impera
e, com ela, a injustiça.
No livro VIII da República Platão apresenta as etapas de decadência
da alma e da cidade. Os homens não são iguais: uns têm
alma de ouro - estes são os que podem comandar a cidade, pois neles
predomina a parte racional; outros têm alma de prata - estes serão
os auxiliares dos chefes, pois estão aptos a desenvolver a coragem
no mais alto ponto e a defender a cidade, de seus inimigos internos e externos;
em sua alma predomina a parte irascível, mas são extremamente
úteis e saudáveis quando se aliam ao elemento superior, na cidade,
o filósofo, na alma, a razão. Outros, ainda, têm alma
de bronze e ferro a estes cabe apenas obedecer às ordens dos chefes,
na cidade, e submetem os apetites à razão.
O homem é um ser de desejos, e alguns destes, por natureza, são
necessários e úteis; a maioria, não. No caso dos desejos
ligados à parte apetitiva, que são os da nutrição
e procriação, a saúde da alma exige que se satisfaçam
apenas os que garantem a manutenção e continuação
da vida. Ora, nem sempre isso acontece. Aliás, quase nunca. O ser humano
se entrega à bebida, às comidas extravagantes, cheias de molhos
e temperos desnecessários, ao sexo pelo sexo e não pela procriação
e passam dos limites. Não cuidam do corpo praticando regularmente a
ginástica, por isso tornam-se fracos fisicamente. Nem cuidam da alma,
cultivando a música. Faltam-lhes as melhores sentinelas, guardiões
da razão, vazios que são de ciência, de hábitos
nobres e de princípios verdadeiros. A boa educação propiciará
um equilíbrio entre os desejos, o império certo dos prazeres
certos.
Na parte concupiscente nasce ou florescem desejos terríveis, selvagens
e sem leis, que temos o hábito de reprimir. Eles fazem parte do cortejo
de Eros e, soltos, levam a alma à loucura. Se a harmonia interior for
desarmoniosa, a cidade será desarmoniosa, então Platão
procura garantir na alma a monarquia do prazer verdadeiro e, na cidade, a
conduta certa, conforme à tábua de valores oferecida pela reta
razão. Para tanto, é necessário colocar o homem no rumo
certo, em direção ao Bem, ao Belo e ao Verdadeiro.
Enfim, vemos que o amor move o agir humano. O homem forma a sociedade, logo,
o Amor se faz presente na sociedade e nos diversos tipos de governos. Mas
podemos nos perguntar: O amor por ser universal se faz presente nos governos
totalitários? Uma pergunta difícil de ser respondida. Mas ele
é universal, ou seja, está presente em todos os lugares, tanto
no sensível quanto no inteligível. O Homem por ser um ser religioso
acredita e busca em diversas crenças ou mitos um refúgio no
Amor. Esse ato de fé é também projetado na sociedade.
O amor não se faz presente somente nos apetites por meio do eros, mas
se faz presente também no philia e no agape. No entanto, o eros busca
de forma mais desejosa a imortalidade.
B.3 COMO O AMOR FOI E É VISTO AO LONGO DOS TEMPOS
Platão foi o primeiro a escrever um tratado filosófico
sobre o Amor, ele faz uma escala hierárquica do amor (Platão,
1983, p. 31-32). Depois dele ao longo dos tempos, muitas pessoas, famosas
ou não, inferiram concepções acerca do Amor.
Segundo Aristóteles (1989, pp. 502-503), Hesíodo (século
VIII a.C.) e Parmênides dizem que o Amor é a gênese do
Universo e a força motriz de todas as coisas. Deus é o motor
imóvel, diz Aristóteles (1989, pp. 602 – 603). Sófocles
diz o seguinte a respeito de Eros “Eros, invencível no combate;
Eros, tu que consomes [riquezas] (...) De ti nenhum dos imortais é
capaz de fugir, nenhum dos homens que só dura um dia. Quem te [possui
enlouquece] .
São João Evangelista afirma que Deus é amor (1 Jo 4,16)
e fazendo memória ao livro do Gênesis escreve: “No principio
era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o verbo era Deus. No principio, ele
estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito. O
que foi feito nele era a vida, e a vida era a luz dos homens, e a luz brilha
nas trevas, mas as trevas não a apreenderam” (Jo 1, 1-5).
Segundo São Tomás de Aquino (1225 - 1274), o Amor é entendido
como amizade entre o homem e Deus, essa amizade é entendida segundo
o significado aristotélico, ou seja, quer o bem de quem ama (amor benevolentiae),
e não apropriar-se do bem de quem ama (amor concupiscientiae). Santo
Tomás de Aquino diz que “o unigênito Filho de Deus, querendo
fazer-nos participantes da sua divindade, assumiu nossa natureza, para que,
feito homem, dos homens fizesse deuses” (Aquino, apud, Liturgia das
Horas, 2000, p. 550). Assim Deus passa a fazer-se parte dos sentidos.
Muitas pessoas sustentaram e sustentam a tese de que o Amor se baseia nos
sentidos, ou seja, o Amor não passa de um sentimento ou prazer, contrariando
assim a posição que trabalho propõe. Muitos filósofos
procuraram definir o Amor, Schopenhauer o chama de inspiração,
já Nietzsche o chama de tolerância, La Roche-foucauld diz que
o Amor é desejo, Stendhal define o amor como prazer e, Voltaire diz
que o Amor é certa superioridade sobre os animais (Abreu, 2006, p.18).
Tantos outros, psicólogos, filósofos, estudiosos etc., inferem
que o amor é exclusivamente sexual, um instante fugaz de prazer, pois
logo depois vem o tédio e o desespero. Outros tantos pensadores e estudiosos
acreditam que a essência do Amor é o sexo, e um instrumento da
natureza para perpetuar a espécie. Nota-se com isso que diversas definições
de Amor estão relacionadas ao sensível e não ao inteligível.
Por isso é importante reportarmos a pergunta inicial: Que é
o Amor? Será ele inteligível ou sensível? Mais adiante
obteremos mais um conceito diante de vários que já existem acerca
do Amor.
Emanuel Lévinas diz que vemos o Amor estampado no rosto do outro, por
isso devemos respeitá-lo. Já Hannah Arendt (1906-1975), em seu
livro A condição humana, nos leva a refletir, fazendo referência
ao nazismo, acerca da dignidade humana e também acerca da dignidade
dos atos humanos para com o próximo. Trocando as palavras de Arendt,
pode-se perguntar o seguinte: O que fazemos ao outro é digno de ser
chamado de Amor?
Mais adiante, quando apresentar a análise acerca da Linguagem, ficará
claro que pode apenas inferir opiniões sobre o Amor.
B.4 O AMOR E A RELAÇÃO INTERPESSOAL
Na contemporaneidade, muitas vezes, quando se fala em amor
refere-se logo a uma relação sexual, tanto que muitas pessoas
usam a expressão “fazer amor”. Amar não é
simplesmente estender seu corpo em direção a outro corpo, muito
menos exigir que o outro corpo, o qual se deseja, estenda até o seu.
Amar não é simplesmente desejar o desejo do outro. Fala-se em
amor aos ideais, a justiça, ao bem, amor à vida, ao trabalho,
ao jogo. amor à pátria, a comunidade, amor paternal, maternal
fraternal, amor às coisas, animadas ou inanimadas, ao dinheiro, obras
de artes, livros. E fala-se de amor ao próximo e de amor a Deus. São
estes os tipos de amor de que as pessoas têm em mente. Nota-se que comumente
usa-se a palavra amor para se referir a muitas coisas. E de fato, por ser
universal, o amor se faz presente em tudo isso, mas não exclusivamente,
pois transcende o sensível.
O amor se faz presente também nas relações interpessoais,
mas infelizmente nota-se que o homem contemporâneo muda o conceito dos
valores ou das leis, de paradigmas que regem sua vida em favor do conforto
individual. Uma das formas que o sujeito usa para mudar o conceito dos valores
é adaptar um significado que possa corresponder às suas necessidades
momentâneas, usando deste significado para se justificar diante daquilo
que não lhe confere um bem estar.
Um valor bastante destorcido pelos homens que buscam o conforto é a
liberdade. Estes homens dizem que liberdade é a escolha que o indivíduo
faz em vista de si mesmo, entre o bem e o mal; justificando com este conceito
sua vida fora de qualquer cogitação que precisa de uma responsabilidade
em grupo.
O homem reduzido a uma coisa não experimenta a riqueza de conservar
e aperfeiçoar sua vida, de ver o valor do outro na relação
interpessoal e nem consegue perceber sua dimensão transcendental, levando-o
a destruir sua própria humanidade encarnada, ou seja, que manifesta
e também das outras pessoas. Por isso, creio que a humanidade reduzida
a uma coisa não tem nada em comum com a verdadeira humanidade encarnada
pelo Amor.
A relação interpessoal, refere-se, sem dúvida, a um agir
ético. O agir que é suscitado, isto é, manifestado pela
ética tem um sentido próprio que é, com efeito, a retidão
na relação interpessoal. Vimos isso no discurso no ideal platônico
e no discurso de Fedro.
A ética é o primeiro passo para a relação se manifestar
de forma clara e transparente.
O Outro que se manifesta no rosto perpassa, de alguma forma, sua própria essência plástica, como um ser que abrisse a janela onde sua figura no encontro já se desenhava. Sua presença consiste em se despir da forma que, entrementes, já a manifestava. Sua manifestação é um excedente sobre a paralisia inevitável da manifestação. É precisamente isto que nós descrevemos pela fórmula: o rosto fala. (Lévinas, 1993, p.59).
Volvendo o olhar para O Banquete vemos que Platão
diz que se as pessoas se amassem, as pessoas teriam vergonha dos atos feios
diante da pessoa amada. E o amor daria novo vigor para as pessoas, pois o
amor as tornaria dispostas a perder a vida pelo amado. Sendo assim, o amor
presente na sociedade não haveria violência e a relação
interpessoal seria mais harmoniosa, mas não é o que vemos.
CAPITULO C
A LINGUAGEM
C.1 A LINGUAGEM
Até aqui fizemos breves análises sobre o Amor
e sua manifestação no mundo em diversas épocas, vimos
ainda que o agir humano gira em torno do Amor, mesmo o homem não entendendo
o Amor, por sua ignorância ou paixões. Mas o ponto fundamental
é que o Amor é Deus, o sumo bem, ou ao menos, nos conduz ao
sumo bem. Sendo o mais antigo entre os deuses, logo ele é o princípio
originário de tudo.
Apesar de não aprofundar muito na questão da Linguagem, Platão,
no diálogo Crátilo, traz uma discussão sobre a linguagem,
ele tem como problema inicial a origem dos nomes: será que a linguagem
tem uma origem convencional ou tem uma origem natural? Digamos que com isso
Platão apenas deu início a discussão sobre o tema. A
palavra, embora comporte algum significado, só adquire sentido numa
frase, ao passo que a Linguagem não é feita de palavras soltas
nem é um discurso que adquire um sentido pela disposição
das palavras na proposição.
Não se pode deixar despercebido as expressões princípio
e origem. Que é princípio? Podemos dizer que princípio
seja a mesma coisa que origem? Sim! Aristóteles concorda com isso,
pois ele diz: “chamamos origem aquela parte da coisa que alguém
começaria primeiro” (Aristóteles, apud, Ferreira, 1999,
p. 102). Então podemos dizer que princípio seja o mesmo que
começar? Não!
“Princípio se distingue de começar ou iniciar. O começo é algo que remete ao princípio. Somente quem inicia algo e dá continuidade a este começo pode alcançar o princípio. Aquele que está sempre começando dificilmente chegará a conhecer o princípio para o qual está orientado. O começo não é o princípio, mas é quem guia e indica a origem, ou seja, o princípio”. (Ferreira, 1999, p. 102).
O princípio é o fundamento primeiro e último
de toda realização, de toda coisa. O princípio é
onde a partir do qual todas as coisas brotam e também é o onde
para o qual tudo se direciona. O princípio contém em si o começo
e o fim, apesar de não ser nem um nem outro. Portanto, o princípio
é sempre uno.
Nestas breves palavras, sem muitas delongas, acerca do princípio quero
mostrar e, acredito que podemos entender que o Amor é o princípio
de tudo. A partir de agora reflitamos, acerca da Linguagem, que igualmente
ao Amor é supra-sensível, perene, imutável, incorruptível,
e una. Logo, podemos também dizer que a Linguagem é princípio,
Heidegger chega a dizer da linguagem originária, mas deixando de lado
as interpretações dos diversos e sábios filósofos
que tratam do assunto acerca da Linguagem, é necessário analisar
o termo logos (?????).
Também São João Evangelista (Jo 1,1) chama Deus de ?????,
portanto, a partir de agora, sempre que aparece Linguagem com “L”
maiúsculo estarei fazendo referência ao Deus judaico-cristão.
Mais adiante veremos ainda a relação entre os termos ????? e
Deus.
Agora que está esclarecida mais um ponto deste trabalho não
se pode inferir que a Linguagem seja uma mera arte de retórica ou de
persuasão, onde o poder mágico das palavras, quando utilizados
com destreza, manipula o interlocutor. A Linguagem também não
é uma convenção humana, como muitos acreditam ser, bem
como não é fruto dos estímulos das emoções
nem da necessidade de comunicação. Estes atributos são
das palavras e não da Linguagem.
Divergindo da posição que este trabalho propõe, Marilena
Chauí diz que a Linguagem nasce por imitação, da necessidade
(fome, sede, abrigo, reunir-se em grupo, etc.), das emoções,
particularmente do grito, do medo, surpresa e alegria. Diz ainda que, nasce
das paixões e, nascendo assim, é primeiro linguagem figurada
e por isso, surgiu como poesia e canto, tornando-se prosa depois. As vogais
nasceram antes das consoantes, como a imagem nasceu antes da escrita. Primeiro
os homens cantaram seus sentimentos, depois experimentaram seus pensamentos.
(Chauí, apud, Castro e Silva, 2006, pp. 56-57).
Deste modo a concepção de Linguagem que este trabalho defende
difere da concepção de linguagem que Chauí defende. Por
isso, pode-se dizer que a Linguagem, de acordo com esta obra, é perene,
imutável, universal e originária, ao passo que a paixão
é fugaz e mutável.
C. 2 O HOMEM E A LINGUAGEM
Em sua obra Política, Aristóteles, afirma que
somente o homem é um animal político, ou seja, um ser social
e cívico, porque somente ele é dotado de Linguagem. Aristóteles
afirma ainda que os outros animais possuem apenas voz (f???) e com ela exprimem
dor e prazer, mas somente o homem possui o ????? e com ele exprime o bom e
o mau, o justo e o injusto.
A Linguagem é inseparável do homem e o segue em todos os seus
atos e, graças a ela o homem modela seu pensamento, seus sentimentos,
suas emoções, seus esforços, sua vontade e seu agir,
e por meio dela o homem influencia e é influenciado. Somente o homem
tem essa faculdade.
Embora possa parecer simples, a expressão linguagem implica vários
pressupostos que devem ser desenvolvidos, todavia, aqui não será
explanado acerca da linguagem na concepção de vários
autores, mesmo podendo eles auxiliar e sustentar este trabalho no caminho
rumo à metafísica. O estudo da linguagem é multi, inter
e transdisciplinar: lingüística, semântica, pragmática,
semiótica, histórica, sociolingüística, psicológica,
antropológica, etc. Ela nos abre um leque sobre vários temas,
pois ela é universal.
A partir de agora os conceitos estarão focalizados em outras fontes,
tal como a Bíblia, por exemplo, visto que esta também é
fonte de pesquisa filosófica.
C.3 A LINGUAGEM É MUITO MAIS QUE MERAS PALAVRAS
Quando se fala em Linguagem, de imediato e erroneamente,
entende-se como a capacidade de falar e dizer algo, criando significados,
compreensões e incompreensões. Linguagem não é
isso, pois mesmo aqueles que são mudos têm a capacidade de se
expressarem, fazendo assim uso da linguagem.
As convenções de significados servem somente para as palavras,
pois mesmo antes da escrita surgir a Linguagem já existia porque, como
vimos anteriormente, ela é o princípio, ou seja, originária.
E ainda, o termo “linguagem” não é nem significa
a mesma coisa que idioma, pois o idioma é uma convenção
peculiar de uma região, de uma época, de um povo e se forma
e se transforma de acordo com os processos históricos, ao passo que
a Linguagem é comum a todos, é uma realidade universal e necessária
para os homens de todos tempos e lugares.
A Linguagem não é uma mera forma de comunicação
convencional em que suas características variam de acordo com o uso
e o costume de cada povo, exigindo assim regras num jogo de linguagem. Portanto,
a Linguagem não é somente uma simples relação
entre o sujeito e o objeto, a Linguagem existe independente dessa relação
e a sua totalidade não está no seu uso.
A Linguagem se manifesta de diversos modos: tanto pela escrita ou grafia (grajema)
como pela fala (jonema), música, gestos, figuras, até mesmo
na natureza (jisi?) a Linguagem está presente. A Linguagem se faz presente
também no corpo humano, ela não está restrita nele, mas
se faz presente, por isso acredito que alguns estudiosos chegam a utilizar
a expressão linguagem corporal. Pois de fato, todas as partes do corpo
humano são utilizadas para transmitir informações, os
olhos, por exemplo, dizem os psicólogos, são os mais importantes,
pois podem transmitir variações muito sutis. Os nossos atos,
o nosso modo de viver, as roupas que vestimos também comunicam, e muitas
vezes dizem quem somos ou que fazemos, sem que profiramos uma só palavra,
isso acontece porque a Linguagem não se restringe somente a comunicação
verbal nem se limita apenas às artes ou às palavras, ela está
presente em tudo e em todos.
Por ser universal, a Linguagem se faz presente de várias formas, cito
aqui a música, por exemplo. A música para o homem primitivo
era considerada um presente dos deuses, uma Linguagem sobrenatural destinada
a facilitar a manifestação de poderes sobrenaturais. Hoje essa
mística perdeu seu sentido, pois os barulhos são tantos que
não sabemos mais o que é música.
O homem primitivo interpretava os sons da natureza (jisi?) como a voz dos
deuses. Essa Linguagem por meio da música se aprimora cada vez mais.
No Ocidente, Pitágoras costuma ser considerado o pai da teoria musical,
a qual foi por ele relacionada à matemática, outro meio por
onde a Linguagem se manifesta. A música sempre esteve presente na vida
do ser humano, tal como a Linguagem. Platão diz que somente a música
é capaz de nos aproximar do Bem/Belo (deus), pois ela é a mais
abstrata das artes, ao passo que a pintura se encontra mais distante da beleza
em si, pois essa é apenas uma cópia da cópia imperfeita
do perfeito, daquilo que já existe.
A Linguagem não possui limites, pois é universal, está
presente em todos os meios de comunicação, expressões,
se faz presente no inteligível e no sensível, ao passo que a
palavra possui limites e se faz presente apenas no sensível sob a condição
de uma simples convenção. A Linguagem não é convenção,
ao passo que a palavra sim. O ser humano é cercado de limites, tanto
que há coisas que ele deseja dizer, mas não consegue, pois ele
é limitado. Por não conseguir dizer ou expressar o que se deseja,
o homem cai em grandes frustrações e angústias, sofre
e, talvez, desemboca numa triste e tremenda crise existencial, tal como dizia
Jean-Paul Sartre em sua filosofia.
A universalidade do Amor e da Linguagem confere ao silêncio o direito
de também se manifestar e de se expressar, pois o silêncio não
é um simples vão. O silêncio é que nos aproxima
do Amor, contudo, não o silenciar das palavras, mas o silêncio
interior, o silêncio da contemplação, e não o silêncio
da Linguagem. As palavras e também o silêncio podem, muitas vezes,
expressarem o desamor, o ódio, e tantos outros sentimentos que ofendem
e “destroem” a alma do homem.
Wittgenstein diz que sobre “aquilo que não se pode falar, deve-se
calar”, creio que esse silêncio forçado faz com que o indivíduo
se desemboque em grandes inquietudes e angústias, pois a limitação
que o Homem possui não permite, por exemplo, sequer que ele conceitue
de modo satisfatório o que é Filosofia, e o que é Amor.
Somos ricos de palavras, por tal motivo estamos rodeados de muitas opiniões
e de poucas verdades.
Olhemos agora para dois sagrados e santos personagens bíblicos: Nossa
Senhora, a Sempre Virgem Maria e o Glorioso São José, esposo
de Maria. Notemos que na Bíblia não há uma palavra dita
por São José, entretanto, ainda hoje é possível
“ouvir o grito do seu silêncio”, o grito do seu exemplo
de vida, o grito da sua santidade. O silêncio que diz muito sem dizer
uma palavra.
O silêncio sempre acompanhou o Homem, sempre comunicou algo, às
vezes, expressa mais que várias palavras. O silêncio, talvez,
seja a “linguagem” que todos entendem. Talvez, ainda, o silêncio
esteja mais próximo do ?????, portanto, para silenciar o silêncio
é necessário silenciar todas as extensões da Linguagem,
ou seja, não é possível silenciar o silêncio. Lembremos
que a morte pode silenciar o indivíduo humano, mas não a Linguagem,
pois ela é imutável.
Mesmo cercado de palavras (paixões) o homem é capaz de se retirar
para o silêncio, mas não qualquer silêncio e sim o silêncio
interior (Amor, Linguagem). Esse silêncio é virtude para uns,
incompreensão para alguns e loucura para outros. Para compreendermos
o silêncio é necessário haver uma abertura de coração,
adesão ao mistério do Amor. Essa adesão se inicia quando
passamos a estar de bem conosco, com Deus e com o próximo e não
quando buscamos justificavas na empiria.
Aos olhos da sociedade atual também é loucura, difícil
de compreender e acreditar que alguém deixa tudo para seguir uma vida
religiosa, como a sacerdotal, por exemplo. Este mistério do Amor divino
é incompreensível, mesmo para quem se entrega a ele. Sabemos
que não merecemos o Amor de Deus, mas Ele nos ama. E nos ama com Amor
incondicional, como diz o profeta Isaias. O Amor é como o Sol, brilha
para todos, bem como é a Linguagem.
Já Nossa Senhora, a Mãe do Amor, disse poucas palavras, mas
não meras palavras. E sim palavras de humildade, que nos leva a refletir
sobre o Amor, principalmente o amor cristão, o Amor humano. Palavras
que cumprem plenamente a vocação de tudo dizer a partir de um
calmo e sereno silêncio. Foi no ventre de Nossa Senhora que o Verbo
– Deus (?????, o verbo divino) – se fez carne. Esse Amor não
nasceu no barulho nem na agitação, mas no silêncio da
noite fria e calma, tendo como único ser humano presente Nossa Senhora,
a Sempre Virgem Maria. O Amor se faz homem para habitar entre os homens e,
muitas vezes não o reconhecemos, pois o procuramos nos palácios
da ciência, da psicologia ou simplesmente não acreditamos nele.
Devemos procurar o Amor nas coisas simples.
Do mesmo modo, podemos observar que a Linguagem se encarna na palavra, nas
artes, na matemática, na liturgia dos gestos, na fala, no silêncio,
no olhar, em tudo. Em tudo a Linguagem se faz presente. A Linguagem se expressa,
sobretudo, nas pessoas, pois a Linguagem é inata. O choro de um bebê,
por exemplo, pode indicar fome e ao tomar consciência disso, o bebê,
que ainda não sabe falar nem escrever, irá chorar toda vez que
sentir fome, pois sabe que terá o alimento. O choro nesse caso é
uma Linguagem. O choro também pode indicar tristeza, alegria, raiva,
dor, etc.
A Linguagem se encarna em nós, independente de idade, sexo, raça,
cor, religião ou visão política, etc. Em sua primeira
carta encíclica Deus caritas est, o Santo Padre, Papa Bento XVI, também
nos leva a uma reflexão acerca da problemática da Linguagem
e não somente do Amor, ele escreve que “o termo ‘amor’
tornou-se, hoje, uma das palavras mais usadas e mesmo abusadas, à qual
associamos significados completamente diferentes...” (Bento XVI, 2006,
p. 7)
C. 4 RELAÇÃO ENTRE O AMOR E A LINGUAGEM
Chegamos a um ponto fundamental da reflexão acerca
do Amor e da Linguagem, pois aqui se torna mais explicito a relação
entre o Amor e Linguagem, deste modo fará sentido tudo aquilo que foi
apresentado anteriormente.
Antes tudo, analisemos brevemente a semântica da palavra Amor, para
que se perceba quão as palavras, a grafia e a pronúncia são
utilizadas de maneiras diferentes, todavia, buscam o mesmo significado. Por
exemplo, a palavra amor em grego é escrito e[??? ou aj??p? ou f???Èa;
em latim amor ou caritas; em inglês love; em francês amour; em
alemão liebe e em italiano amore.
O Amor promove a unidade entre diversas pessoas do mesmo e/ou de diferentes
idiomas, tal como a Linguagem promove a unidade de diferentes palavras. As
paixões unem os diversos tipos de sentimentos, todavia esses sentimentos
mudam ao sabor do vento, igualmente são as palavras, elas mudam com
o tempo, com as mudanças históricas e políticas, tal
como vemos hoje com o idioma português. Já o Amor, como vimos,
é supra-sensível e imutável, portanto, não se
pode confundir o Amor com a Paixão. Do mesmo modo, não se pode
confundir Linguagem com palavra.
A Linguagem, ao contrário das palavras, é constante, imutável
e perene, tal como é o Amor, constante, imutável e perene. Por
isso, creio que é inútil tentar modificar a essência do
Amor ou da Linguagem, pois isso é impossível, visto que ambos
são perenes. A única coisa que está ao alcance do Homem
é a mudança de seu próprio comportamento diante do Amor,
porque assim as relações sociais e comportamentais também
mudarão. O Amor torna o Homem mais feliz, mais gentil e a convivência
ao lado de outra ou de outras pessoas, o faz mais feliz, todavia, a felicidade
não o isenta das dificuldades.
Conforme vimos até aqui o Amor foi tratado como um deus, mas pensemos
agora no Deus judaico-cristão, o qual é universal. São
João Evangelista Diz que Deus é Amor, por isso afirmo que o
Amor é universal e essa universalidade faz com que o Amor habite em
cada um de nós, seres humanos, mas, apesar disso, é impossível
aprisioná-lo, pois, como já foi dito, é impossível
aprisionar o infinito. Contudo, o egoísmo leva o Homem a inclinar-se
“malevicamente” à tentativa de, em vão, aprisionar
e trancar o Amor que habita em nós e, ainda, algumas pessoas possessivas
e super-ciumentas exigem uma correspondência imediata do Amor do outro
e exige ainda que o Amor que habita no outro seja exclusivamente seu, como
se o Amor fosse maleável ao sabor fugaz dos anseios humanos. Não
se pode esquecer que o Amor se faz presente na Liberdade.
Muitas pessoas, talvez, pelo fato de não tentarem viver verdadeiramente
o enigma do Amor ou por serem tão mesquinhas, prepotentes, orgulhosas,
auto-suficientes, e por estarem centradas em seu “mundinho” particular,
não são capazes sequer de enxergarem o que têm diante
dos olhos: a universalidade, o Amor. Por isso, principalmente os jovens, estão
vulneráveis ao Eros, ou melhor, enxergam primeiramente o Eros e não
o Agape e o Philia. Não que o Eros seja menos importante que o Agape
e o Philia, pois também ele nos conduz a divindade. Os jovens facilmente
se refugiam e se entregam gratuitamente aos apetites sensuais e carnais, desvalorizando
o Philia (f???Èa) e o Agape (aj??p?). Os desejos desregrados serão
infinitamente insaciáveis, por isso eles levam o Homem a se desembocar
em vícios, sofrendo assim grandes frustrações, deixando
de lado o Amor.
A paixão faz com que as pessoas enxerguem o Amor de modo ofuscado,
em alguns casos ela chega a “cegar”. Portanto, o Amor não
é paixão! O Amor é muito mais que um elo de sentimentos,
muito mais que qualquer desejo ou êxtase de prazer. A paixão
e as palavras são fugazes, ao passo que o Amor e a Linguagem são
perenes.
O Amor se deixa identificar, porém não plenamente (por isso
é um mistério) nem de uma só vez, mas gradativamente
e somente o tanto que se precisa, por isso, o Homem manifesta o desejo de
compreender e de se entregar sem reservas a outra pessoa, no anseio de se
agarrar ao Amor do outro, para que o Amor que está presente na outra
pessoa complete o que falta nele. Não que o Amor seja fragmentado,
mas porque o Eros que habita no Homem o faz desejar ardentemente a união
corporal, e quando não regado de Philia ou de Ágape o Homem
cai na constante busca de prazeres no intuito de encontrar o Amor. Pois os
sentidos são apenas sombras imperfeitas do Amor inteligível.
O presente trabalho não faz aqui uma apologia contra o Eros, mas sim
contra a busca do prazer desregrado. O Eros nos conduz ao prazer da divindade,
da procriação, da imortalidade, por meio da multiplicação
da espécie.
Quando o Homem não consegue unir o seu Amor com o Amor de outra pessoa
ele tende a cair em depressão e na loucura, tal como conta a lenda
de Narciso, que ao contemplar seu rosto refletido na água, apaixonou-se
por si próprio. A maior dificuldade em sentir a presença do
Amor está no fato de as pessoas o procurar, geralmente, nas coisas
complexas, ao passo que Ele (o Amor) se encontra na mais pura simplicidade,
tanto na simplicidade exterior quanto simplicidade interior.
Apesar do Homem ser morada do Amor e ao mesmo tempo tender para o Amor, tal
como toda palavra tende para a Linguagem, é difícil explicar
ou conceituar o Amor, pois o Amor é universal e infinito, ao passo
que o Homem é finito. Poderia até trocar a palavra difícil
por impossível. É impossível que o finito, o fugaz e
o mutável conceitue, de modo satisfatório, o Amor, o imutável
e o infinito? Mas se fosse impossível ninguém tentaria defini-lo,
pois seria impossível.
O Homem, muitas vezes, não consegue explicar muitas coisas que lhes
são próprias, tal como o Amor, pois somente quem um dia verdadeiramente
acreditou amar e ser amado pode se arriscar a inferir alguma opinião
a respeito do Amor, contudo, sem alcançar a totalidade dessa definição.
Por isso mesmo diante de tantos conceitos a angústia se faz presente
no homem, pois quer sempre entender e alcançar o absoluto, porém
não consegue. Quando definimos ou conceituamos algo estamos limitando
esse algo, é como se cercássemos uma área. Será
pois, possível cercar o Amor? Reformulando a pergunta: É possível
limitar o infinito e o universal? Claro que não!
Também não se pretende fazer aqui um proselitismo ou uma exegese
bíblica, até porque a análise proposta é filosófica
e não teológica, mas nada impede que se faça uma reflexão
teológica, conforme foi advertido na introdução, para
que assim se compreenda melhor o objetivo deste trabalho.
O Amor e a Linguagem estão tão unidos que ambos não provém
da mesma fonte originária de tudo, pois ambos formam uma única
fonte, ambos são uno e não uma dualidade.
Na citação bíblica (1 Jo 4,16) – a qual já
lemos anteriormente – o evangelista São João retoma o
hino mais antigo que reproduz o relato da criação, em Gênesis
1,1-31, escandido pelos verbos: “Deus disse... e assim se fez”.
Deus Criou o mundo através do seu Verbo, Deus é o próprio
Verbo, a Linguagem criadora de tudo que existe. Heidegger, provavelmente inspirado
nesse mesmo texto de São João, escreveu sobre a linguagem e
utiliza o termo Linguagem originária para justificar o princípio
de tudo.
No início do livro do Gênesis está escrito: “no
princípio Deus criou o céu e a terra”. Deus disse: “Faça-se
a luz!” E a luz foi feita. Deus disse: “Faça-se um firmamento
entre as águas, e separe ele umas das outras” (Gn 1, 1-6). Ainda
no início do livro do Gênesis vemos que o escritor sagrado procura
contar as origens do Céu e da Terra, é uma verdadeira cosmogonia.
Deus cria também o homem por meio da Linguagem, "Façamos
o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). “Deus
criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou
o homem e a mulher” (Gn 1, 27).
Alguns tradutores bíblicos utilizam o termo “Palavra” para
se referirem a Deus, em grego ?????, em latim “Verbum”, todavia,
nas Sagradas Escrituras devemos entender o termo “Palavra” como
Linguagem, ou seja, como próprio Deus, para os cristãos. Mas
aqui neste trabalho, conforme já foi apresentada, a expressão
“palavra” se mostra muito limitada. Vimos também que, segundo
Aristóteles, somente o homem possui o ?????, pode-se inferir, portanto
que somente o homem pode manifestar o Amor, inclusive de modo racional.
O texto sagrado diz: “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava
com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). O próprio texto explicita
que Deus é o ?????, ou seja, Deus é a Linguagem.
O mesmo Verbo que criou tudo o que existe foi o mesmo que se encarnou no ventre
da Sempre Virgem Maria. O Amor se materializa por Amor aos seres humanos.
“Disse, então, Maria: Eu sou a serva do Senhor; faça-se
em mim segundo a tua palavra”. “E o Verbo se fez carne”
(Lc 1, 38). Apesar do Amor fazer morada em nós, para que Ele se manifeste
deve haver uma disposição livre e integral de nossa parte, tal
como Maria teve para com o seu Senhor.
Finalmente, retornando o foco à filosofia. Hesíodo e Parmênides
foram os primeiros a sugerir que o Amor é a força que move as
coisas, que as une e as mantém juntas. Aristóteles e Santo Tomás
de Aquino falam sobre o motor imóvel, de fato, é esse motor
imóvel, o Amor, que move todas as coisas sem se mover. Deus é
Amor. O Amor move as pessoas. Só podemos conhecer aquilo que existe,
do mesmo modo só podemos amar aquilo que existe, aquilo que é.
O Homem existe e, por isso, ele não pode negar o Amor, bem como não
pode se distanciar da Linguagem.
CONCLUSÃO
Foi necessário elaborar um texto com tal tema para
que se perceba como os gregos antigos enxergavam o Amor, e que ao longo dos
tempos outras concepções foram surgindo de modo completamente
diferente uma da outra. Do mesmo modo a concepção de Linguagem.
Portanto, ler este trabalho as pessoas possam rever a sua concepção
de Amor e de Linguagem.
O Banquete não foi apenas de aperitivos ou guloseimas, mas também
de belos discursos a respeito do Amor. Deste modo espero que este trabalho
não seja apenas mais um exercício de leitura, mas sim de reflexão
de debate. Foi á luz de O Banquete procurei afirmar que o Amor e a
Linguagem é Deus, na visão judaico-cristã, e que ambos
não formam uma dualidade, mas sim uma unicidade, donde provém
a multiplicidade de todos os bens.
Essa reflexão acerca do Amor e da Linguagem nos leva a perceber que
o Homem não pode se lançar na fugacidade e que não precisa
simplesmente definir o Amor de modo racional, mas que basta apenas acreditar
na sua existência e viver conforme essa fé no Amor, desde que
não seja um amor totalitário e opressor.
O intuito aqui não foi simplesmente mudar a concepção
de Amor e de Linguagem, mas antes de tudo fazer com que se acredite no Amor
e na Linguagem. Acreditar é um ato de fé, portanto, diante de
tantas concepções de Amor se não houver um referencial
seguro e imutável há um sério risco de nos perder diante
do que sentimos, deixando com que a paixão guie o agir humano.
Antes de nos perguntar que é o Amor? Devemos nos perguntar eu acredito
no Amor? Deste modo pode-se fazer uma reflexão como esta acerca do
Amor. A respeito da Linguagem merecia um pouco mais de atenção
filosófica, todavia também diante de tantos referenciais a que
melhor sustenta a analogia realizada é o Evangelho de São João.
O ser humano é um mistério e mais misterioso é o Amor,
a tentativa aqui foi buscar desvendar esse mistério numa visão
judaico-cristã, tendo como ponto de partida a filosofia de Platão,
o qual chama o Amor de Belo. E durante essa busca se tornou mais explicito
e evidente que o Amor e a Linguagem se fazem presentes também nos sentimentos,
mas não se originam neles, e a paixão quando não moderada
ofusca o Amor que se faz presente no indivíduo, deixando a paixão
reinar absolutamente na vida do indivíduo. O Amor é como o Sol,
brilha para todos, tal como a beleza divina.
Por fim, nada mais belo que procurar a felicidade na amizade, especialmente
na amizade divina. Mas também é importante cultivar a amizade
humana. Por isso, está dedicado esse trabalho a todos os meus amigos,
pois é na f???a que se inicia a subida dos degraus até a Beleza
absoluta. Quem acredita no Amor acredita na amizade.
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