Devanilson Álvares de Souza
Águas Lindas de Goiás
BRASIL

ABC DO AMOR E DA LINGUAGEM

Brasília – DF – Brasil
Dezembro de 2008

“Nem o espírito ama sozinho, nem o corpo: é o ser humano, a pessoa, que ama como criatura unitária, de que fazem parte do corpo e da alma”.
Papa Bento XVI


RESUMO


O Amor e a Linguagem se fazem presentes no Homem e o Homem está inserido no Mundo. Segundo Platão, existem dois mundos ou duas realidades: a inteligível e a sensível. Essa concepção platônica é conhecida por Teoria das Idéias ou Teoria das Formas. O primeiro mundo, o inteligível, é constituído de idéias eternas, imutáveis e inatas. O segundo mundo, o sensível, ou seja, o mundo empírico é o mundo percebido pelos sentidos, o qual para Platão não passa de uma pálida reprodução do mundo das Idéias. Além da cosmologia, também a antropologia platônica é totalmente dualista. Platão desenvolve a noção de que o homem está em contato permanente com os dois tipos de realidade: a inteligível e a sensível. A partir Inspirado por O Banquete é possível inferir uma concepção de Amor, sendo ele o princípio originário de tudo. E inspirado pelo Evangelho de São João reflito acerca da Linguagem, que igual ao Amor é inteligível, perene, imutável, incorruptível e una. Logo, podemos também dizer que a Linguagem é princípio originário de tudo. Há então dois princípios? Não! Nesta reflexão o Amor e Linguagem são atributos ao Deus judaico-cristão. O Amor promove a unidade entre diversas pessoas de mesmo ou de diferentes idiomas, tal como a Linguagem promove a unidade de diferentes palavras. As paixões unem os diversos tipos de sentimentos, todavia esses sentimentos mudam ao sabor do vento, igualmente são as palavras, elas mudam com o tempo, devido aos fatores históricos e políticos, tal como vemos hoje com o idioma português. Por tal motivo o Amor, como vimos, é supra-sensível e imutável, portanto, não se pode confundir o Amor com a Paixão. Do mesmo modo, não se pode confundir Linguagem com Palavra. Tendo o Amor e a Linguagem as mesmas características, concluo que ambos são divinos, ou melhor, Deus. E o Homem, por estar em contato com inteligível e com o sensível, está também em contato com o Amor e com as paixões, com a Linguagem e com as palavras.


Palavras - chave: Homem, Mundo, Amor, Linguagem, inteligível, sensível.

RESUMEN

El Amor y el Lenguaje están presentes en los seres humanos y el hombre esta en el mundo. Según Platón, hay dos mundos y dos realidades: la inteligible y la sensible. Este concepto se conoce como la teoría platónica de las ideas o teoría de las formas. El primer mundo, el inteligible, se compone de ideas eternas, inmutables y innatas. El segundo mundo, el sensible, es decir, el mundo empírico es el mundo percibido por los sentidos, para Platón es sólo una pálida reproducción del mundo de las ideas. Además de la cosmología, la antropología platónica es totalmente dualista. Platón desarrolló la idea de que el hombre está en contacto permanente con los dos tipos de realidad: la inteligible y sensible. Inspirado por “El Banquete” es posible inferir una concepción del Amor, que es el principio original de todo. E inspirado por el Evangelio de San Juan reflejo sobre el Lenguaje, que también es inteligible como el Amor, eterno, inmutable, incorruptible y una. Por lo tanto podemos decir también que el Lenguaje es origen de todo. Hay dos principios entonces? No! En esta reflexión el Amor y Lenguaje son los atributos del Dios judeo-cristiano. El amor promueve la unidad entre los distintos individuos de del mismo o de diferentes idiomas, como el Lenguaje promueve la unidad de las diferentes palabras. Las pasiones unen los distintos tipos de sentimientos, pero los sentimientos cambiar el sabor del viento, así también son las palabras, que cambian a lo largo del tiempo, debido a factores históricos y políticos, como vemos hoy con el idioma portugués. Por esta razón, el Amor como hemos visto, es supra sensible e inmutable, por lo tanto, no debe confundirse con el Amor pasión. Del mismo modo, no se puede confundir el Lenguaje con palabras. Una vez que el Lenguaje y el Amor tienen las mismas características, mi conclusión es que ambos son divinos, o mejor, Dios. Y como el hombre está en contacto con el inteligible y sensible, también está en contacto con el Amor y las pasiones, con el Lenguaje y con palabras.


Palabras - llave: Hombre, Mundo, Amor, Lenguaje, inteligible, sensible.


SUMÁRIO

RESUMO III
RESUMEN IV

INTRODUÇÃO 06

CAPÍTULO A – O HOMEM E O MUNDO 07
A.1 – O Mundo 07
A.2 – O Homem 08

CAPÍTULO B – O AMOR 12
B.1 – O Banquete do Amor 12
B.1.1 – Fedro, o primeiro orador: O Amor tem dois títulos: ADMIRAÇÃO E LOUVOR AOS MORTAIS 13
B.1.2 – Pusânias, o segundo orador: DISTINÇÃO ENTRE O AMORNOBRE E O AMOR VIL. 14
B.1.3 – Erixímaco, o terceiro orador: O AMOR É UNIVERSAL 15
B.1.4 – Aristófanes, o quarto orador: O AMOR EXIGE A PERFEIÇÃO DO PRÓPRIO EU. 16
B.1.5 – Agatão, o quinto orador, AMOR É FELIZ E BELO 17
B.1.6 – Sócrates, o sexto orador: O AMOR É UM ITERMÉDIO ENTRE DEUS E O HOMEM. 17
B.2 – O Amor: A divindade entre nós 19
B. 2.1 – Tipos de amores para os gregos: AGAPE, PHILIA E EROS 20
B.3 – Como o Amor foi e é visto ao longo dos tempos 24
B.4 – O Amor e a relação interpessoal 25

CAPÍTULO C – A LINGUAGEM 27
C1. – A Linguagem 27
C.2. – O Homem e a Linguagem 28
C.3 – A Linguagem é muito mais que meras palavras. 29
C. 4 – A relação entre o Amor e A Linguagem 32

CONCLUSÃO 37

BIBLIOGRAFIA 39



INTRODUÇÃO

Diversas pessoas de diferentes épocas e lugares já escreveram, debateram e estudaram sobre o Amor e também sobre a Linguagem. O resultado disso é o surgimento de diversos conceitos e mitos, os quais fazem o Homem se perder diante de tantos referenciais. Confrontando com tal problemática realizo aqui uma singela reflexão acerca destes dois temas: o Amor e a Linguagem, para que deste modo se chegue a uma noção de referencial absoluto, imutável, perene e seguro. Mas que referencial é esse? A resposta ou pelo menos a proposta de resposta será encontrada ao longo da leitura deste trabalho.
Partindo de conceitos já existentes a reflexão culminará com uma analogia entre o Amor e a Linguagem, no entanto, como já dizia Jaeger (2001, p. 725), “não é possível expor aqui na totalidade os vários aspectos do tema”. O ponto de partida deste estudo é a filosofia de Platão, de modo especial a sua obra: O Banquete. No entanto, peço licença para utilizar a Bíblia, livro sagrado dos cristãos, nesse estudo filosófico, porém não no intuito de fazer proselitismo, mas para que melhor se compreenda o que desejo expor acerca do Amor e da Linguagem. Os livros bíblicos utilizados são Gênesis e o Evangelho de São João.
O título ABC não quer significar que o conteúdo abordado aqui seja doutrinal, mas sim um processo reflexivo metodológico acerca do Amor e da Linguagem. ABC quer dizer simplesmente que a presente monografia é composta de três capítulos (“A”, “B” e “C”), por este motivo é intitulada de ABC do Amor e da Linguagem.
No primeiro capítulo, ou seja, no capítulo “A”, abordo a concepção de Mundo e de Homem, de modo especial na visão platônica. Pois somente o Homem ama e expressa o Amor e a Linguagem. O Homem está presente no mundo, por este motivo é necessário saber qual concepção de Mundo e de Homem. Ainda no capítulo “A” procuro mostrar a Teoria das Idéias platônicas, a qual explicita a existência de dois mundos: o sensível e o inteligível.
No segundo capítulo, isto é, no capítulo “B”, trago à tona a problemática do Amor de acordo com O Banquete, onde os oradores, os convidados de Agatão elogiam, em forma de discurso, o Amor. Apresento também três aspectos ou visões sobre o Amor: eros, ágape e philia. Ainda no capítulo “B”, apresento brevemente a concepção de Amor ao longo dos tempos.
Finalmente, o capítulo “C”, terceiro e último capítulo, trato de modo especial a reflexão acerca da Linguagem, principalmente numa visão judaico-cristã. E somente no fim deste capítulo encerro a reflexão com a analogia entre o Amor e a Linguagem.

CAPITULO A

O HOMEM E O MUNDO


A.1 O MUNDO


É necessário que se faça primeiramente um breve estudo acerca do Mundo e depois do Homem, principalmente de acordo com a filosofia de Platão , para que se possa compreender a analogia entre o Amor e a Linguagem que proponho neste trabalho. O Amor e a Linguagem se fazem presentes no Homem e o Homem está inserido no Mundo. Mas o que é o Mundo para Platão? E o que é o Homem? Somente após uma compreensão de Mundo e de Homem é que se compreenderá a concepção de Amor e de Linguagem nesta monografia.
Etimologicamente a palavra mundo vem do termo grego cosmos (??sµ??), que em latim passou a ser chamado de mundus. Pelo termo mundo se entende a “totalidade das coisas existentes [qualquer que seja o significado de existência]” (Abbagnano, 2003, p. 687). “Diz-se que Pitágoras foi o primeiro a chamar o mundo de cosmo. Para ressaltar sua ordem, o certo é que essa é a interpretação desse conceito que prevalece na filosofia grega. É aceita por Platão e Aristóteles” (Abbagnano, 2003, p. 687).
Segundo Platão, existem dois mundos ou duas realidades: a inteligível e a sensível. Essa concepção platônica é conhecida por Teoria das Idéias ou Teoria das Formas . O primeiro mundo, o inteligível, é constituído de idéias eternas, imutáveis e inatas. Este primeiro é alcançável somente pela razão e pela idéia. O segundo mundo, o sensível, ou seja, o mundo empírico, o qual é percebido pelos sentidos e que para Platão não passa de uma pálida reprodução do mundo das Idéias. Esta seria a concepção de mundo para Platão: o mundo sensível e o mundo inteligível. Nota-se ai uma dualidade.
Somente se alcança a realidade inteligível através do pensamento e apenas o pensamento, e não os sentidos, pode alcançar a verdade última das coisas, segundo Platão. A realidade inteligível guarda uma idéia perfeita de cada coisa. Os sentidos apenas reconhecem no meio da multiplicidade dos seres materiais. As primeiras e mais importantes idéias, base de todas as demais, são as idéias do Belo, do Bom, do Verdadeiro e do Justo.
Giovanni Reale (1990, p. 137) diz que Platão denominou essas causas de natureza não-física (realidades inteligíveis) recordando principalmente aos termos Idéia (?jd?a) e Eidos (e?j~d??), que significa “forma”. Reale diz ainda, que as idéias de que Platão falava não são simples conceitos ou representações puramente mentais, mas representam “entidades”, substâncias. As idéias são, em suma, não simples pensamentos, mas aquilo que o pensamento pensa quando liberto do sensível constituem o verdadeiro ser, o ser por excelência.
As idéias são as essências das coisas, ou seja, aquilo que faz com que cada coisa seja aquilo que é. Platão utilizou também o termo paradigma, para indicar que as idéias representam o modelo permanente de cada coisa, isto é, como cada coisa deve ser.
É nessa temática metafísica de mundo ideal e inteligível que desejo mostrar a analogia entre o Amor e a Linguagem. Mas antes é necessário que se reflita também acerca do Homem, visto que ele se faz presente no Mundo.


A.2 O HOMEM


No início do quarto discurso em O Banquete, Aristófanes diz que antes de se falar do Amor é necessário primeiro que se compreenda a natureza humana (Platão, 1983, p. 22). Portanto, acredito ser necessário que se faça brevemente uma reflexão acerca da concepção de Homem, principalmente de acordo com o conceito platônico. Pois somente o homem é capaz de amar e somente ele é dotado de Linguagem, isto é, do ?????.
Etimologicamente a palavra Homem vem do termo grego anthropós (a[????p??) que na forma latina corresponde a homo, daí vem a expressão homo sapiens, traduzindo, homem racional ou homem sábio. Antes de prosseguir com a reflexão é importante saber que “os questionamentos e discussões sobre que seja o homem são antigas, tão antigas quanto o próprio homem” (Silva, 2007, p. 28).
A concepção de Homem floresce na cultura grega nos meados dos séc. VIII e VII antes de Cristo, no entanto, foi a partir do séc. V a.C., com Sócrates, que ocorre um estudo mais fecundo e racional acerca da antropologia, ou seja, começaram deixar de lado as explicações mitológicas sobre o homem. Os pré-socráticos já começaram deixar de lado a mitologia para explicar a existência do mundo, utilizando para tal as explicações dos fenômenos físicos. No entanto, o pensamento de muitos filósofos antigos, inclusive o de Platão, está repleto de mitos, pois o homem grego antigo era muito religioso.
Para Sócrates, “o humano só tem sentido e explicação se referido a um princípio interior ou a uma dimensão de interioridade presente em cada homem e que ele designou justamente com o antigo termo de alma (psyché), mas dando uma significação essencialmente nova” (Vaz, 1991, p. 28). Sócrates vê a alma como a sede da areté (excelência ou virtude), a qual orienta a vida humana segundo o justo e o injusto. Seria, pois a alma a essência do homem, para Sócrates.
No pensamento grego acreditava-se que havia uma oposição entre o mundo dos deuses (?e??) e mundo dos mortais (?a?at?í). Creio que por isso a antropologia platônica é totalmente dualista. Platão desenvolve a noção de que o homem está em contato permanente com dois tipos de realidades: a inteligível e a sensível. O homem, através da alma, participa do inteligível e, através do corpo, participa do sensível. Por isso, para Platão, o homem é uma dualidade entre o corpo e alma. E apenas para se ter uma noção de concepção de homem na Idade Média cito Santo Tomás de Aquino, o qual diz que o homem não é uma dualidade, mas sim um composto de corpo e alma (Silva, 2007, p. 18).
Retomemos o pensamento na Idade Antiga. Nessa dualidade platônica, o corpo representa o sensível, ou seja, a matéria, ao contrário a alma representa o inteligível, isto é, o imaterial. Esse imaterial é o divino que o homem possui, ao passo que o corpo é, na visão dos gregos antigos, a prisão da alma.
No tocante entre o corpo e alma, Platão explicita que a união entre o corpo e a alma não é apenas acidental, mas um castigo para a alma, por isso o corpo é tido como uma prisão. Nessa dualidade radical de Platão entre a alma e o corpo, o filósofo grego despreza este último em favor da thorein, isto é, da contemplação de Deus, que se dá pelo desapego de tudo aquilo que é físico.
Por meio da relação de sua alma com a alma do mundo, o homem tem acesso ao mundo das Idéias e aspira ao conhecimento e às idéias do Bem e da Justiça. A partir da contemplação do mundo das Idéias, o Demiurgo , tal como Platão descreveu no Timeu, organizou o mundo sensível. Não se trata de uma criação ex nihilo, isto é, do nada, como no caso do Deus judaico-cristão, pois o Demiurgo não cria a matéria nem é a fonte da racionalidade das Idéias por ele contempladas.
O homem, por ser “modelado” ou “criado” por Demiurgo, restringe sua ação somente ao mundo material, por isso no mundo das Idéias o homem não pode transformar nada, pois este já é perfeito. Fica claro, portanto que, para Platão, o Homem é a dualidade entre corpo e alma. Sendo que a alma está aprisionada ao corpo.
Ainda na cultura da antiga Grécia, havia duas imagens fundamentais de homem. Na primeira imagem o homem é visto como animal que fala e discorre (zoon logikón) e a na segunda imagem o homem é visto como animal político (zoon politikón). Segundo Padre Vaz, somente enquanto dotado do logos o homem é capaz de participar da vida política (bios politikós) (Vaz, 1998, p.27).
E a respeito do Amor, os gregos o viam como um deus. O Amor é que faz com que os homens anseiem em serem bem aventurados (eudaimones), a participar da imortalidade, do contrário eles serão infelizes (talaíporoi). O Amor faz o homem modificar seu agir (práxis) moral e político.
Platão está firmemente convencido de que todo homem quer o Bem, ainda que por vezes se engane na compreensão do que é o Bem. O Bem (O Amor) é que motiva o homem como uma força propulsora que sempre o estimula a caminhar em direção a si próprio, à sua verdadeira natureza, sedenta do belo, do bem e da verdade.
Até aqui tratei do estudo do Mundo e do Homem para que se compreenda e que fique claro a existência de duas realidades para Platão: o sensível e o inteligível, que estão prestes tanto no Homem quanto no Mundo. Estando o homem inserido no mundo sensível está sujeito às paixões e as mudanças, mas também é um ente que aspira a imortalidade.
A partir de Platão o estudo acerca do homem se tornou muito vasto, portanto seria muito extenso tratar aqui acerca de toda problemática em torno da antropologia e das críticas feitas a Platão. É necessário que se entenda que ao olhar para a filosofia da Grécia Antiga, é importante que se coloque os óculos da antiguidade e não devemos condenar Platão a partir de uma ótica medieval, moderna ou contemporânea, até por que graças a ele vários estudos, debates e teorias surgiram.
Enfim, agora que se tem uma noção de Mundo e de Homem não será difícil entender que o Amor é o inteligível e que se manifesta no sensível de diversos modos, ao passo que a paixão é o sensível e está em busca do inteligível. No entanto há uma dualidade entre o Amor e a paixão. Igualmente a Linguagem é o inteligível que se faz presente de diversas formas no sensível, ao contrário a palavra é o sensível que busca inteligível. E por estar em contato com inteligível e com o sensível, o Homem está também em contato com o Amor e com as paixões, com a Linguagem e com as palavras, como veremos mais adiante.

CAPITULO B

O AMOR


B.1 O BANQUETE DO AMOR


Na existência humana a solidão sempre se fez presente, talvez por isso, o homem tenha inventado o Amor, ou quem sabe, o Amor que criou o homem? Afinal de contas, que é o Amor? Como foi dito anteriormente, muitos já discutiram esse assunto, por isso talvez resolver essa problemática ou definir o Amor seja impossível, mas vivê-lo é digno e nobre de quem é humano.
Talvez de fato seja impossível definir o Amor, mas inspirado pelo O Banquete é possível arriscar inferir mais uma concepção de Amor entre tantas outras já existentes. O Banquete é um livro escrito por Platão, onde o narrador é Apolodoro. Apolodoro encontra um companheiro que pede para que conte, em detalhes, de que modo foi realizado o banquete (symposion, isto é, jantar coletivo) promovido por Agatão (??????, que significa “de bravos” ??a???) em sua casa. Apolodoro inicia a narração contando ao seu companheiro aquilo que Aristodemo havia contado. Aristodemo encontrou Sócrates banhado e calçado, raro de vê-lo nesses trajes e vão juntos à casa de Agatão, onde ocorreu o banquete. Aristodemo foi sem convite e Sócrates diz que “a festins de bravos, bravos vão livremente” (Platão, 1983, pp. 8-9), fazendo assim um elogio a Aristodemo e encorajando-o a ir ao banquete.
Em O Banquete, Agatão, poeta trágico de grande mérito, um dia após sua magnífica apresentação teatral, reúne os seus amigos mais íntimos, que por sinal são ilustres representantes da cultura grega antiga, e lhes oferece em sua casa um banquete para comemorarem seus triunfos teatrais. Esses seus amigos fazem elogios ao Amor em forma de discursos, graças a idéia de Fedro e a proposta de Erixímaco. Erixímaco conta a todos a queixa que Fedro lhe fez, pois os poetas tendo por missão cantar hinos aos deuses esqueceram-se do Amor. “Fedro freqüentemente me diz irritado: - Não é estranho, Erixímaco, que para os outros deuses haja hinos e peãs feitos pelos poetas, enquanto que ao Amor, todavia, um deus tão venerável e tão grande, jamais um só dos poetas que tanto se engrandeceram fez sequer um ecônomo?” (Platão, 1983, p. 11).
Erixímaco atende a queixa de Fedro e propõe a todos que o discurso seja acerca do Amor, mas que Fedro, por ser o pai da idéia, inicie o discurso (Platão, 1983, pp. 11-12). No entanto, não é para fazer qualquer tipo de discurso ou realizá-lo de qualquer modo, todos os presentes, da esquerda para a direita, devem fazer um discurso de louvor ao Amor, o mais belo discurso que puder, e que Fedro inicie (Platão, 1983, p. 12).
Vejamos, pois os pontos fundamentais do discurso de cada um dos oradores que O Banquete nos traz. O primeiro dos oradores a discursar foi Fedro, um brilhante retórico, Pausânias foi o segundo orador, em seguida o médico Erixímaco, depois os poetas Aristófanes e Agatão e, por fim, Sócrates, que, tomando a palavra, atribui o que vai dizer a uma sacerdotisa de Mantinéia, Diotima.


B.1.1 FEDRO, O PRIMEIRO ORADOR: O AMOR TEM DOIS TÍTULOS:
ADMIRAÇÃO E LOUVOR AOS MORTAIS


Fedro, o pai da idéia de celebrar o Amor, foi o primeiro dos oradores, apresenta o Amor como deus incomparável, admirado entre todos os homens e deuses e por ser o Ser mais antigo, não tem genitores: “Assim, pois, eu afirmo que o amor é dos deuses o mais antigo, o mais honrado e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens em sua vida como após a morte”. (Platão, 1983, p. 14).
Além do título de admirado tanto pelos deuses como pelos homens, Fedro, atribui também ao Amor o título de mais honrado e o mais antigo dentre os deuses, por isso, o Amor, é a causa dos maiores bens. O Bem, para Fedro, é o bom amante ser bem amado por seu amado. “Não sei eu, com efeito, dizer que haja maior bem para quem entra na mocidade do que um bom amante, e para um bom amante, do que o seu bem amado.” (Platão, 1983, p. 13).
Fedro diz ainda que o Amor deve dirigir a vida dos homens. Em A República de Platão é possível observar o anseio, deste magnífico filósofo, em constituir uma sociedade perfeita e justa. Uma sociedade de amantes e de amados será mais forte nas guerras, pois aquele que ama luta com mais vigor, faz com que o amante defenda sua cidade por causa do amado, pois somente quem ama consente em morrer pelo amado. E somente por meio do Amor, o mais honrado e o mais poderoso dentre os deuses, diz Fedro, pode-se alcançar a virtude e a felicidade, como na vida como após a morte. (Platão, 1983, p 14). Fedro mostra o exemplo de Alceste , filha de Pélis, a qual foi a única que consentiu em morrer pelo marido, embora ele tivesse pai e mãe (Platão, 1983, pp. 13-14).
Diante do amado, o amante procura se afastar de tudo que é feio porfiando entre si no apreço à honra, em defesa da cidade e da justiça. Quem ama tem vergonha do que é feio e apreço do que é belo.
Fedro conclui seu discurso confirmando o que disse no início, dizendo que o amor é o mais antigo dos deuses, o mais honrado e o mais poderoso para a aquisição da virtude e da felicidade entre os homens, tanto em sua vida como após sua morte (Platão, 1983, p.14).

B.1.2 PAUSÂNIAS, O SEGUNDO ORADOR: DISTINÇÃO ENTRE O AMOR NOBRE E O AMOR VIL.

Pausânias, o segundo orador, inicia seu discurso dirigindo a palavra a Fedro e critica-o dizendo: “Não me parece bela, ó Fedro, a maneira como nos foi proposta o discurso, essa simples prescrição de elogio ao Amor. Se com efeito, um só fosse o Amor, muito bem estaria, na realidade porém, não é ele um só [...], porém são dois os Amores [...]: O Amor de Afrodite Pandêmia e o de Urânia” (Platão, 1983, pp. 14-15).
O grande retórico, Pausânias, tenta precisar o conceito de amor numa definição mais concreta, sem deixar de lado a mitologia. Ele diz que não há apenas um Amor, mas dois tipos de amores ou duas naturezas: o amor nobre e o amor vil.
O amor vil, para Pausânias, é aquele que é regido pelo instinto e que tende a uma simples satisfação dos apetites sexuais, este é o Amor popular, o Amor de Afrodite. E é o Amor de Afrodite que os vulgares amam, eles amam mais o corpo que a alma, tem em mira apenas em efetuar o ato sem se preocupar se é decente ou não. Pausânias diz que um mau amante é aquele que ama mais o corpo que a alma, pois ele não é constante, por amar um objeto que também não é constate (Platão, 1983, p. 17).
Este Amor, o vil, é proveniente da deusa Afrodite, que é mais jovem que Urânia. De Urânia provém o Amor nobre, aquele que tem origem divina, tende ao Bem e a perfeição do amado. Este segundo Amor pretende ser uma força educadora, não apenas de desviar os amantes das ações vis, mas em guiá-los a virtude.
Reportando ao Amor de Urânia, assim conclui Pausânias o seu discurso: “Este é o Amor da deusa celeste, ele mesmo celeste e de muito valor para a cidade e os cidadãos, porque muito esforço ele obriga a fazer pela virtude tanto ao próprio amante como ao amado, os outros, porém são todos da outra deusa [Afrodite], da popular” (Platão, 1983, pp. 18-19).

B.1.3 ERIXÍMACO, O TERCEIRO ORADOR: O AMOR É UNIVERSAL

Erixímaco, médico de grande respeito, o terceiro orador, discursa no lugar de Aristófanes, visto que este teve uma crise de soluço e não pode falar (Platão, 1983, p. 19). Erixímaco adota preliminarmente a distinção feita por Pausânias, ou seja, de algo concreto para depois estender e ampliar a extensão do conceito. Erixímaco parte da observação da natureza (fi[s??), isto é, da física e não da mitologia para se chegar ao metafísico, mas isso não o impede de louvar o Amor como sendo um deus poderoso.
Erixímaco amplia e estende o alcance do Amor, não o limita somente ao homem, como fizera os oradores anteriores. Ele defende a idéia de que o Amor seja universal. Segundo ele, o duplo amor não reside apenas nos homens, mas nos animais, nas plantas e em todos os seres, ou seja, em todo o universo. O Amor seria, portanto, universal.
Erixímaco, com efeito, começou seu discurso através da medicina, por isso acredita-se que ele explica satisfatoriamente a existência de dois amores em função dos dois estados antagônicos no organismo, o mórbido e o sadio, no interior de cada um dos quais há um amor diferente. Erixímaco, ao explicar que a arte da medicina visa à transformação do amor mórbido no sadio, ele prolonga essa explicação com o comentário, aparentemente pertinente, de que os estados mais hostis um ao outro devem no corpo, pela presença do amor, tornarem-se amigos e assim realiza a saúde.
Erixímaco defende ainda a idéia de “o Eros [Amor] ser o princípio do devir do mundo físico” (Jaeger, 2001, p. 730), por isso há a distinção dos contrários, pois estão sempre em mudança, mas é na harmonia que existe a essência do Amor, para Erixímaco.
Este médico faz do Amor uma potência universal, pois sua ação está em todas as esferas do cosmo e ele é fonte de toda verdadeira harmonia.

B.1.4 ARISTÓFANES, O QUARTO ORADOR: O AMOR EXIGE A PERFEIÇÃO DO PRÓPRIO EU.

O quarto orador foi Aristófanes, o famoso comediógrafo ateniense, que expressa a sua original concepção de Amor sob a forma de um mito, digno de sua prodigiosa fantasia cômica, mas volta também seu olhar para a antropologia, ou seja, para o homem, pois pretende explicar o misterioso poder do amor sobre os homens.
Mas antes de começar seu discurso Aristófanes dirige a palavra à Erixímaco dizendo que discursará diferente dele e de Pausânias (Platão, 1983, p. 22). E aos olhos de Aristófanes parece que os homens não perceberam o poder do Amor, pois se o percebessem os maiores templos e altares lhes preparariam, e os maiores sacrifícios lhe fariam (Platão, 1983, p. 22).
Aristófanes inicia o discurso dizendo que o Amor é “o deus mais amigo do homem” (Platão, 1983, p. 22). E se falando do homem, Aristófanes fala da natureza humana. Ele diz que o estado primitivo do gênero humano constava de três sexos: “Em primeiro lugar eram três gêneros da humanidade, não dois como agora o masculino e o feminino, mas também havia mais um terceiro, comum a estes dois, do qual resta agora um nome, desaparecida a coisa; andrógino era então um gênero distinto, tanto na forma como no nome comum aos dois, ao masculino e ao feminino, enquanto agora nada mais é que um nome posto em desonra.” (Platão, 1983, p. 22).
Antes ser dividido em dois pelos deuses, o homem gozava de grandes faculdades, dais quais faziam com que os deuses tivessem medo de que ele abalasse o céu com sua força titânica, por isso o homem foi dividido em duas partes: a masculina e a feminina. O Amor nasce do anseio de o homem voltar a sua totalidade, por isso une-se com a sua metade correspondente. Sendo assim, “o Amor por outro ser humano é focalizado à luz do processo de aperfeiçoamento do próprio eu. Esta perfeição só é atingível na relação com um tu” (Jaeger, 2001, p. 732). Por isso, o amor constitui uma exigência de perfeição do próprio eu.
Observa-se que Aristófanes apresenta o Amor como que uma busca por aquilo que lhe foi tirado e que se pretende voltar a encontrar. É uma constante busca de um outro, para que assim possa se completar. Acredito que dessa forma “o Eros representa um anseio por qualquer coisa que não se tem e se deseja ter” (Jaeger, 2001, p. 735).
Analisando novamente o início do discurso de Aristófanes ele diz que os homens parecem não ter percebido o poder do amor, pois se tivessem notado os maiores templos e altares seriam dedicados a ele, pois ele é o deus mais amigo do homem (Platão, 1983, p. 22). Vemos, por fim, que o Amor é visto como um deus que é amigo dos homens e Platão aborda bem mais a fundo a questão da amizade em Lísis .


B.1.5 AGATÃO, O QUINTO ORADOR: AMOR É FELIZ E BELO

O quinto discurso foi o de Agatão. Ele diz que todos os que falaram antes dele pareciam que não era a um deus que elogiavam, mas aos homens que felicitavam pelos bens de que o deus lhes é causador (Platão, 1983, p. 27).
Para este enfatuado poeta trágico o Amor é o mais feliz e o mais formoso, é o melhor entre os deuses. É jovem, fino e delicado e reside em locais floridos e perfumados. Nunca é coagido, pois seu reino é de uma vontade livre e pura. Possui todas as virtudes: a justiça, a prudência, a valentia e a sabedoria. É um poeta admirável que ensina os outros a sê-lo. Desde que o Eros pousou no Olímpio, o trono dos deuses passou do terrível ao belo. Foi ele quem ensinou sua arte para maior parte dos mortais.
Agatão conclui seu discurso dirigindo a palavra a Fedro dizendo que o Amor, primeiramente por ser em si mesmo belo e o melhor, depois é que é para os outros a causa de outros tantos bens (Platão, 1983, p. 29).

B.1.6 SÓCRATES, O SEXTO ORADOR: O AMOR É UM INTERMÉDIO ENTRE DEUS E O HOMEM.

O último a discursar foi Sócrates, ele faz uma recordação da sacerdotisa Diotima. Assim Sócrates apresenta de modo diferente de todos os oradores o seu discurso e rompe radicalmente com o discurso de Agatão.
Sócrates conta aos convivas a conversa que teve com Diotima acerca do Amor. Portanto é Diotima, na pessoa de Sócrates, que mostra o que seria o amor. O amor, ensina Diotima, não é belo nem feio, não é pobre nem rico, não é sábio nem ignorante, não é mortal nem imortal, não é homem nem deus, mas sim o intermédio e no cume de tudo se encontra o belo (Jaeger, 2001, p. 736). O amor é um daimon, ou seja, é um “gênio que está entre um deus e um mortal” (Platão, 1983, p.34).
Então podemos nos perguntar: qual é o poder do amor? Diotima responde, que o amor tem o poder de:

“interpretar e transmitir aos deuses o que vem dos homens, e aos homens o que vem dos deuses, de uns as súplicas e os sacrifícios, e dos outros as ordens e as recompensas pelos sacrifícios, e dos outros as ordens e as recompensas pelos sacrifícios; e como está no meio de ambos ele os completa, de modo que o todo fica ligado todo a si mesmo. Um deus com homem não se mistura, mas é através desse ser que se faz todo o convívio e diálogo dos deuses com os homens, tanto quando despertos como quando dormindo, e aquele que em tais questões é sábio é um homem de gênio , enquanto o sábio em qualquer outra coisa, arte ou ofício, é um artesão. E esses gênios, é certo, são muitos e diversos, e um deles é justamente o Amor” (Platão, 1983, pp. 34-35).

Sócrates, talvez impelido pela curiosidade, pergunta a Diotima qual a origem do amor, qual são os genitores do amor. E Diotima explicou que:

“Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses, e entre os demais se encontrava também o filho de Prudência, Recurso. Depois que acabaram de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza, e ficou pela porta. Ora Recurso, embriagado com néctar (pois vinho ainda não havia) foi ao jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza então, tramando em sua falta de recurso engendrar um filho de Recurso deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor. Eis porque ficou companheiro e servo de Afrodite o Amor, gerado em seu natalício, ao mesmo tempo que por natureza amante do belo, porque também Afrodite é bela. E por ser filho o Amor de Recurso e de Pobreza foi esta a condição em que ele ficou. Primeiro, sempre pobre, e longe está de ser delicado e belo, como a maioria imagina, mas é duro, seco, descalço e sem lar, sempre por terra e sem forro, deitando-se ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a necessidade. Segundo o pai, porém, o Amor é insidioso com que é belo e bom, é corajoso, decidido e enérgico, caçador, sábio e cheio de recursos. Não é mortal nem imortal (Platão, 1983, p. 35).

De acordo com a a narrativa de Diotima é possivel inferir que o Amor faz com que o homem participe do mundo dos deuses, ou seja, da divindade, já que ele é o intermédio entre os deuses e os homens. Deste modo o homem está sempre em constante aspiração a felicidade (e?jda?µ???Èa). Assim a vontade humana sempre tende ao bem, pois o homem nunca pode desejar o que não considera seu bem.
Por fim, para Platão, “o amor é o compêndio da aspiração humana ao Bem” (Jaeger, 2001, p. 738).

B.2 O AMOR: A DIVINDADE ENTRE NÓS

Observando todos os discursos dos oradores de O Banquete podemos inferir que o Amor de fato seja uma divindade e que dele emana todos os bens. E o Amor está sempre relacionado ao Homem, pois somente ele (o Homem) pode amar e se sentir amado.
O Banquete não omite que mesmo sendo uma divindade o Amor acabou sendo deixado de lado, desvalorizado e esquecido pelo Homem. Sócrates concordando com a exposição de Fedro a respeito do Amor como um deus, mobiliza aos outros membros do banquete a prestar homenagens ao Amor, em forma de disputa. São inúmeros elogios, alguns relatando o surgimento do Amor, como já foi relatado.
Hesíodo vai dizer que o primeiro a existir foi o caos, depois a terra com seu vasto peito, fundamento de tudo, eterno e firme; veio em seguida o Amor. Os testemunhos a respeito do Amor são muitos, assim como muitas são as formas de interpretar sua origem. Mas uma coisa é de se concordar: o Amor é realmente uma divindade entre os antigos. Sendo, pois o Amor uma divindade na concepção platônica, ele pode trazer inúmeros benefícios. Sem o Amor é impossível a um povo ou a um indivíduo a realização de feitos grandiosos e belos.
Somente os que amam estão dispostos a darem suas vidas pelos seus. Isso não cabe somente aos homens, mas inclusive às mulheres. Alceste é símbolo da mulher que é capaz de dar sua vida por amor (Platão, 1983, pp.13-14). Os deuses da mitologia grega tinham grande apreço ao zelo pelo Amor e a coragem que o Amor infunde nas pessoas.
O Amor é a força propulsora que se converte em educadora fazendo subir do inferior ao superior. Esta evolução tem início na juventude, com a admiração da beleza física de cada ser humano. Mas a beleza de um corpo é irmã gêmea da beleza dos outros corpos, fazendo assim com que o verdadeiro discípulo do amor ame a beleza em todos, pois vai ver neles uma única beleza presente em todos os corpos. Vemos, portanto que há uma beleza espiritual que é mais que uma admiração dos corpos. Reconhecendo isso o amante estará livre das paixões, ou melhor, saberá dominar e controlar as paixões, não se lançando em ações vis. Pois a paixão também é própria do ser humano. Passando por todos esses degraus, finalmente poderemos contemplar a beleza divina, desligada de qualquer relação com o sensível.
Diotima definiu a essência do Amor como a aspiração a apropriar-se para sempre do Bem (Platão, 1983, p. 37). A idéia de Bem ocupa lugar central no pensamento platônico, para onde um dia a alma pretende retornar: ao Bem.

B.2.1 TIPOS DE AMORES PARA OS GREGOS: AGAPE, PHILIA E EROS

Anteriormente (em A2) afirmei que, por meio do Amor, o Homem participa da imortalidade. Vejamos, pois de que modo ele participa e vejamos também como os gregos enxergavam o Amor:

“Quando a comunidade sofre de uma doença orgânica que lhe afeta o conjunto ou é destruída, a obra da sua reconstrução só pode partir de um grupo reduzido, mas fundamentalmente são, de homens de idênticas idéias, o qual sirva de célula germinal para um novo organismo, é sempre este o significado da amizade (f???Èa) para Platão” (Jaeger, 2001, 718).

A comunidade humana vai desde as formas fundamentais e simples da vida familiar até os diversos tipos de Estado.
Os gregos no intuito de tentar entender o Amor, pedagogicamente, o dividiram em três partes, ou melhor, utilizaram três conceitos diferentes: e[??? (Eros), f???Èa (Philia) e aj??p? (Ágape). Philia é o Amor relacionado à amizade. A junção da expressão grega f???Èa com a expressão grega s?f?a (sophia – sabedoria) da origem a palavra f???s?f?a (filosofia – philos + sophia) que quer dizer amor à sabedoria, portanto, filósofo é aquele que ama o saber.
O Ágape também é uma da diversas palavras gregas para se referir ao Amor. A palavra foi usada de maneiras diferentes por uma variedade de fontes contemporâneas e antigas, incluindo os autores da Bíblia. Muitos pensaram que esta palavra representa o amor divino, incondicional, com auto-sacrifício ativo, pela vontade e pelo pensamento. Os filósofos gregos nos tempos de Platão e outros autores antigos usaram o termo para denotar o amor a um esposo ou a uma família, ou a afeição para uma atividade particular, em contraste com philia, uma afeição que poderia ser encontrada entre irmãos ou a afeição assexuada, e eros, uma afeição de natureza sexual.
De modo especial a expressão ágape é retomada com um significado mais profundo no Evangelho de João para exprimir a relação entre Jesus e seus discípulos. Mas o uso Cristão de ágape vem diretamente dos Evangelhos Canônicos. Quando perguntado qual era o maior mandamento, Jesus disse: "Amai (ágape) ao senhor vosso Deus com todo vosso coração e com toda vossa alma e com toda vossa mente”. Este é o primeiro e maior de todos os mandamentos. E o segundo é: "Amai (ágape) vosso próximo como a vós mesmos. Toda a lei e os Profetas residem nestes dois mandamentos" (Mateus 22: 37-41). No Sermão da Montanha Jesus diz: "Ouvistes dizer: 'amarás (ágape) teu irmão e odiarás teu inimigo', mas eu vos digo: amai (ágape) vossos inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, e orai por aqueles que vos perseguem e maltratam, pois deste modo sereis filhos de vosso Pai nos céus, aquele que faz com que o sol se levante o mau e sobre o bom, e faz chover sobre o justo e sobre o injusto. Se amais apenas aqueles que vos amam, que recompensa tereis?". O Apóstolo Paulo descreve o amor como segue: "O amor (ágape) é paciente, o amor é amável. Sem inveja, ele não tem ostentação, ele não é orgulhoso. Não é rude, ele não é interessado, ele não se irrita facilmente, ele não mantém nenhum registro dos erros. O amor não se deleita com o mal mas rejubila com a verdade. Protege sempre, confia sempre, sempre tem esperança, sempre persevera. O amor nunca falha.” (I Coríntios, 13, 4:8).
O Philia e o Ágape estão intimamente ligados a ponto de serem confundidos. Ambos se diferenciam muito do Amor Eros. O Eros é um forte impulso dos desejos, principalmente o sexual, e das vontades que impele o homem a perpetuar a espécie, desejando assim a imortalidade.
Há várias mitologias gregas acerca de Eros, deus do Amor. A mais famosa é a que representa como um menino travesso, caprichoso, dotado de asas e armado de arco e flechas, é o mais jovem dos deuses. Ele personificava todos os sentimentos ligados ao amor e ao desejo, principalmente a paixão física. As flechas que atira têm a propriedade de deixar o coração dos mortais e dos imortais completamente inflamados de amor.
Eros recebe genealogias diferentes, ora ele é filho de Ilitia, ou de Iris, ou de Hermes e Artemis. A tradição preponderante o faz filho de Hermes e de Afrodite. Mas os mitólogos, que distinguem várias Afrodites, também distinguem vários amores: Eros, filho de Hermes e de Afrodite Urânia, Eros Antéros [Amor Contrário ou Recíproco], filho de Ares e Afrodite, filha de Zeus com Dione, Eros, filho de Hermes e de Ártemis, filha de Zeus e de Perséfone.
As pinturas de Pompéia tornaram esse tipo de amor muito popular: representado como uma criança. Mas o que é constante é o fato de, sob a aparência de inocente, ser um deus de grande poder, capaz de ferir cruelmente.
Já Platão descreve que o amor foi concebido num festim dos deuses, em virtude do nascimento de Afrodite (Platão, 1983, p. 35). A noção de Amor contida nesse mito platônico enquadra-se perfeitamente ao amor humano, cujas manifestações revelam um complexo antitético de pobreza e de riqueza, de dignidade e de baixeza, de sabedoria e de ignorância. Mas isso não se pode aplicar a Deus, o sumo Bem. Pois, para Platão, o amor é essencialmente indigente: tende a um bem que ainda não possui, enquanto Deus de nada precisa. Assim, o amor, segundo a mitologia (Recurso e Pobreza) é somente um elo entre os deuses e os homens. No entanto, mais adiante quero mostrar que o Amor não é mais visto como um elo, e sim como o próprio Deus, especialmente na visão judaico-cristã.
O ser humano sempre teve a tendência de se afastar de Deus, isto é, do verdadeiro Amor e ao mesmo tempo o busca. O Homem vem se afastando de Deus em busca somente das verdades convencionais baseadas na diplomacia e opiniões, pois o homem passa apenas a se admirar diante do espelho, ou seja, deixa de lado o inteligível para se prender ao sensível. Por estar preso ao sensível, o Homem se inclina cada vez mais em direção ao Eros de modo desregrado, Amor que sempre esteve presente na vida do ser humano e na sociedade. Esse Amor alimenta os apetites carnais, isto é, sexuais. Hoje vemos explicitamente nos comerciais de multimídias, especialmente nos de TV, uma falsa valorização do corpo, ou seja, do sensível, onde o e[??? (Eros) se destaca de modo absoluto, ofuscando o f???Èa (Philia) e o aj??p? (Ágape). O Eros é Amor, mas “o Amor não é um sentimento apenas. Os sentimentos vão e vêm. O Sentimento pode ser uma maravilhosa centelha inicial do Amor, mas não é a totalidade do Amor” (Bento XVI, 2006, p.31).
Na República, Platão mostra que o Eros interfere no funcionamento da parte apetitiva da alma. Sua atuação é destacada como negativa, pois vem associada à tirania dos sentidos. Ainda em A República, Platão divide a alma humana em três partes: a racional, a irascível e a irracional ou apetitiva. Cada uma deve exercer a atividade que lhe é própria. À parte racional, que é superior, cabe comandar e sua qualidade específica é a sabedoria. À parte irascível compete auxiliar a parte racional, de tal forma que suas ordens sejam sempre obedecidas; a qualidade que a distingue é a coragem. À parte apetitiva cabe obedecer aos comandos da parte racional e a qualidade que lhe cabe é a temperança. Se cada parte exerce sua função, a alma está em harmonia, é justa e saudável. Quando ocorre de alguma parte desviar-se de sua tarefa, a alma adoece: a desordem impera e, com ela, a injustiça.
No livro VIII da República Platão apresenta as etapas de decadência da alma e da cidade. Os homens não são iguais: uns têm alma de ouro - estes são os que podem comandar a cidade, pois neles predomina a parte racional; outros têm alma de prata - estes serão os auxiliares dos chefes, pois estão aptos a desenvolver a coragem no mais alto ponto e a defender a cidade, de seus inimigos internos e externos; em sua alma predomina a parte irascível, mas são extremamente úteis e saudáveis quando se aliam ao elemento superior, na cidade, o filósofo, na alma, a razão. Outros, ainda, têm alma de bronze e ferro a estes cabe apenas obedecer às ordens dos chefes, na cidade, e submetem os apetites à razão.
O homem é um ser de desejos, e alguns destes, por natureza, são necessários e úteis; a maioria, não. No caso dos desejos ligados à parte apetitiva, que são os da nutrição e procriação, a saúde da alma exige que se satisfaçam apenas os que garantem a manutenção e continuação da vida. Ora, nem sempre isso acontece. Aliás, quase nunca. O ser humano se entrega à bebida, às comidas extravagantes, cheias de molhos e temperos desnecessários, ao sexo pelo sexo e não pela procriação e passam dos limites. Não cuidam do corpo praticando regularmente a ginástica, por isso tornam-se fracos fisicamente. Nem cuidam da alma, cultivando a música. Faltam-lhes as melhores sentinelas, guardiões da razão, vazios que são de ciência, de hábitos nobres e de princípios verdadeiros. A boa educação propiciará um equilíbrio entre os desejos, o império certo dos prazeres certos.
Na parte concupiscente nasce ou florescem desejos terríveis, selvagens e sem leis, que temos o hábito de reprimir. Eles fazem parte do cortejo de Eros e, soltos, levam a alma à loucura. Se a harmonia interior for desarmoniosa, a cidade será desarmoniosa, então Platão procura garantir na alma a monarquia do prazer verdadeiro e, na cidade, a conduta certa, conforme à tábua de valores oferecida pela reta razão. Para tanto, é necessário colocar o homem no rumo certo, em direção ao Bem, ao Belo e ao Verdadeiro.
Enfim, vemos que o amor move o agir humano. O homem forma a sociedade, logo, o Amor se faz presente na sociedade e nos diversos tipos de governos. Mas podemos nos perguntar: O amor por ser universal se faz presente nos governos totalitários? Uma pergunta difícil de ser respondida. Mas ele é universal, ou seja, está presente em todos os lugares, tanto no sensível quanto no inteligível. O Homem por ser um ser religioso acredita e busca em diversas crenças ou mitos um refúgio no Amor. Esse ato de fé é também projetado na sociedade. O amor não se faz presente somente nos apetites por meio do eros, mas se faz presente também no philia e no agape. No entanto, o eros busca de forma mais desejosa a imortalidade.

B.3 COMO O AMOR FOI E É VISTO AO LONGO DOS TEMPOS

Platão foi o primeiro a escrever um tratado filosófico sobre o Amor, ele faz uma escala hierárquica do amor (Platão, 1983, p. 31-32). Depois dele ao longo dos tempos, muitas pessoas, famosas ou não, inferiram concepções acerca do Amor.
Segundo Aristóteles (1989, pp. 502-503), Hesíodo (século VIII a.C.) e Parmênides dizem que o Amor é a gênese do Universo e a força motriz de todas as coisas. Deus é o motor imóvel, diz Aristóteles (1989, pp. 602 – 603). Sófocles diz o seguinte a respeito de Eros “Eros, invencível no combate; Eros, tu que consomes [riquezas] (...) De ti nenhum dos imortais é capaz de fugir, nenhum dos homens que só dura um dia. Quem te [possui enlouquece] .
São João Evangelista afirma que Deus é amor (1 Jo 4,16) e fazendo memória ao livro do Gênesis escreve: “No principio era o Verbo e o Verbo estava com Deus e o verbo era Deus. No principio, ele estava com Deus. Tudo foi feito por meio dele e sem ele nada foi feito. O que foi feito nele era a vida, e a vida era a luz dos homens, e a luz brilha nas trevas, mas as trevas não a apreenderam” (Jo 1, 1-5).
Segundo São Tomás de Aquino (1225 - 1274), o Amor é entendido como amizade entre o homem e Deus, essa amizade é entendida segundo o significado aristotélico, ou seja, quer o bem de quem ama (amor benevolentiae), e não apropriar-se do bem de quem ama (amor concupiscientiae). Santo Tomás de Aquino diz que “o unigênito Filho de Deus, querendo fazer-nos participantes da sua divindade, assumiu nossa natureza, para que, feito homem, dos homens fizesse deuses” (Aquino, apud, Liturgia das Horas, 2000, p. 550). Assim Deus passa a fazer-se parte dos sentidos.
Muitas pessoas sustentaram e sustentam a tese de que o Amor se baseia nos sentidos, ou seja, o Amor não passa de um sentimento ou prazer, contrariando assim a posição que trabalho propõe. Muitos filósofos procuraram definir o Amor, Schopenhauer o chama de inspiração, já Nietzsche o chama de tolerância, La Roche-foucauld diz que o Amor é desejo, Stendhal define o amor como prazer e, Voltaire diz que o Amor é certa superioridade sobre os animais (Abreu, 2006, p.18). Tantos outros, psicólogos, filósofos, estudiosos etc., inferem que o amor é exclusivamente sexual, um instante fugaz de prazer, pois logo depois vem o tédio e o desespero. Outros tantos pensadores e estudiosos acreditam que a essência do Amor é o sexo, e um instrumento da natureza para perpetuar a espécie. Nota-se com isso que diversas definições de Amor estão relacionadas ao sensível e não ao inteligível. Por isso é importante reportarmos a pergunta inicial: Que é o Amor? Será ele inteligível ou sensível? Mais adiante obteremos mais um conceito diante de vários que já existem acerca do Amor.
Emanuel Lévinas diz que vemos o Amor estampado no rosto do outro, por isso devemos respeitá-lo. Já Hannah Arendt (1906-1975), em seu livro A condição humana, nos leva a refletir, fazendo referência ao nazismo, acerca da dignidade humana e também acerca da dignidade dos atos humanos para com o próximo. Trocando as palavras de Arendt, pode-se perguntar o seguinte: O que fazemos ao outro é digno de ser chamado de Amor?
Mais adiante, quando apresentar a análise acerca da Linguagem, ficará claro que pode apenas inferir opiniões sobre o Amor.

B.4 O AMOR E A RELAÇÃO INTERPESSOAL

Na contemporaneidade, muitas vezes, quando se fala em amor refere-se logo a uma relação sexual, tanto que muitas pessoas usam a expressão “fazer amor”. Amar não é simplesmente estender seu corpo em direção a outro corpo, muito menos exigir que o outro corpo, o qual se deseja, estenda até o seu. Amar não é simplesmente desejar o desejo do outro. Fala-se em amor aos ideais, a justiça, ao bem, amor à vida, ao trabalho, ao jogo. amor à pátria, a comunidade, amor paternal, maternal fraternal, amor às coisas, animadas ou inanimadas, ao dinheiro, obras de artes, livros. E fala-se de amor ao próximo e de amor a Deus. São estes os tipos de amor de que as pessoas têm em mente. Nota-se que comumente usa-se a palavra amor para se referir a muitas coisas. E de fato, por ser universal, o amor se faz presente em tudo isso, mas não exclusivamente, pois transcende o sensível.
O amor se faz presente também nas relações interpessoais, mas infelizmente nota-se que o homem contemporâneo muda o conceito dos valores ou das leis, de paradigmas que regem sua vida em favor do conforto individual. Uma das formas que o sujeito usa para mudar o conceito dos valores é adaptar um significado que possa corresponder às suas necessidades momentâneas, usando deste significado para se justificar diante daquilo que não lhe confere um bem estar.
Um valor bastante destorcido pelos homens que buscam o conforto é a liberdade. Estes homens dizem que liberdade é a escolha que o indivíduo faz em vista de si mesmo, entre o bem e o mal; justificando com este conceito sua vida fora de qualquer cogitação que precisa de uma responsabilidade em grupo.
O homem reduzido a uma coisa não experimenta a riqueza de conservar e aperfeiçoar sua vida, de ver o valor do outro na relação interpessoal e nem consegue perceber sua dimensão transcendental, levando-o a destruir sua própria humanidade encarnada, ou seja, que manifesta e também das outras pessoas. Por isso, creio que a humanidade reduzida a uma coisa não tem nada em comum com a verdadeira humanidade encarnada pelo Amor.
A relação interpessoal, refere-se, sem dúvida, a um agir ético. O agir que é suscitado, isto é, manifestado pela ética tem um sentido próprio que é, com efeito, a retidão na relação interpessoal. Vimos isso no discurso no ideal platônico e no discurso de Fedro.
A ética é o primeiro passo para a relação se manifestar de forma clara e transparente.

O Outro que se manifesta no rosto perpassa, de alguma forma, sua própria essência plástica, como um ser que abrisse a janela onde sua figura no encontro já se desenhava. Sua presença consiste em se despir da forma que, entrementes, já a manifestava. Sua manifestação é um excedente sobre a paralisia inevitável da manifestação. É precisamente isto que nós descrevemos pela fórmula: o rosto fala. (Lévinas, 1993, p.59).

Volvendo o olhar para O Banquete vemos que Platão diz que se as pessoas se amassem, as pessoas teriam vergonha dos atos feios diante da pessoa amada. E o amor daria novo vigor para as pessoas, pois o amor as tornaria dispostas a perder a vida pelo amado. Sendo assim, o amor presente na sociedade não haveria violência e a relação interpessoal seria mais harmoniosa, mas não é o que vemos.

CAPITULO C

A LINGUAGEM

C.1 A LINGUAGEM

Até aqui fizemos breves análises sobre o Amor e sua manifestação no mundo em diversas épocas, vimos ainda que o agir humano gira em torno do Amor, mesmo o homem não entendendo o Amor, por sua ignorância ou paixões. Mas o ponto fundamental é que o Amor é Deus, o sumo bem, ou ao menos, nos conduz ao sumo bem. Sendo o mais antigo entre os deuses, logo ele é o princípio originário de tudo.
Apesar de não aprofundar muito na questão da Linguagem, Platão, no diálogo Crátilo, traz uma discussão sobre a linguagem, ele tem como problema inicial a origem dos nomes: será que a linguagem tem uma origem convencional ou tem uma origem natural? Digamos que com isso Platão apenas deu início a discussão sobre o tema. A palavra, embora comporte algum significado, só adquire sentido numa frase, ao passo que a Linguagem não é feita de palavras soltas nem é um discurso que adquire um sentido pela disposição das palavras na proposição.
Não se pode deixar despercebido as expressões princípio e origem. Que é princípio? Podemos dizer que princípio seja a mesma coisa que origem? Sim! Aristóteles concorda com isso, pois ele diz: “chamamos origem aquela parte da coisa que alguém começaria primeiro” (Aristóteles, apud, Ferreira, 1999, p. 102). Então podemos dizer que princípio seja o mesmo que começar? Não!

“Princípio se distingue de começar ou iniciar. O começo é algo que remete ao princípio. Somente quem inicia algo e dá continuidade a este começo pode alcançar o princípio. Aquele que está sempre começando dificilmente chegará a conhecer o princípio para o qual está orientado. O começo não é o princípio, mas é quem guia e indica a origem, ou seja, o princípio”. (Ferreira, 1999, p. 102).

O princípio é o fundamento primeiro e último de toda realização, de toda coisa. O princípio é onde a partir do qual todas as coisas brotam e também é o onde para o qual tudo se direciona. O princípio contém em si o começo e o fim, apesar de não ser nem um nem outro. Portanto, o princípio é sempre uno.
Nestas breves palavras, sem muitas delongas, acerca do princípio quero mostrar e, acredito que podemos entender que o Amor é o princípio de tudo. A partir de agora reflitamos, acerca da Linguagem, que igualmente ao Amor é supra-sensível, perene, imutável, incorruptível, e una. Logo, podemos também dizer que a Linguagem é princípio, Heidegger chega a dizer da linguagem originária, mas deixando de lado as interpretações dos diversos e sábios filósofos que tratam do assunto acerca da Linguagem, é necessário analisar o termo logos (?????).
Também São João Evangelista (Jo 1,1) chama Deus de ?????, portanto, a partir de agora, sempre que aparece Linguagem com “L” maiúsculo estarei fazendo referência ao Deus judaico-cristão. Mais adiante veremos ainda a relação entre os termos ????? e Deus.
Agora que está esclarecida mais um ponto deste trabalho não se pode inferir que a Linguagem seja uma mera arte de retórica ou de persuasão, onde o poder mágico das palavras, quando utilizados com destreza, manipula o interlocutor. A Linguagem também não é uma convenção humana, como muitos acreditam ser, bem como não é fruto dos estímulos das emoções nem da necessidade de comunicação. Estes atributos são das palavras e não da Linguagem.
Divergindo da posição que este trabalho propõe, Marilena Chauí diz que a Linguagem nasce por imitação, da necessidade (fome, sede, abrigo, reunir-se em grupo, etc.), das emoções, particularmente do grito, do medo, surpresa e alegria. Diz ainda que, nasce das paixões e, nascendo assim, é primeiro linguagem figurada e por isso, surgiu como poesia e canto, tornando-se prosa depois. As vogais nasceram antes das consoantes, como a imagem nasceu antes da escrita. Primeiro os homens cantaram seus sentimentos, depois experimentaram seus pensamentos. (Chauí, apud, Castro e Silva, 2006, pp. 56-57).
Deste modo a concepção de Linguagem que este trabalho defende difere da concepção de linguagem que Chauí defende. Por isso, pode-se dizer que a Linguagem, de acordo com esta obra, é perene, imutável, universal e originária, ao passo que a paixão é fugaz e mutável.

C. 2 O HOMEM E A LINGUAGEM

Em sua obra Política, Aristóteles, afirma que somente o homem é um animal político, ou seja, um ser social e cívico, porque somente ele é dotado de Linguagem. Aristóteles afirma ainda que os outros animais possuem apenas voz (f???) e com ela exprimem dor e prazer, mas somente o homem possui o ????? e com ele exprime o bom e o mau, o justo e o injusto.
A Linguagem é inseparável do homem e o segue em todos os seus atos e, graças a ela o homem modela seu pensamento, seus sentimentos, suas emoções, seus esforços, sua vontade e seu agir, e por meio dela o homem influencia e é influenciado. Somente o homem tem essa faculdade.
Embora possa parecer simples, a expressão linguagem implica vários pressupostos que devem ser desenvolvidos, todavia, aqui não será explanado acerca da linguagem na concepção de vários autores, mesmo podendo eles auxiliar e sustentar este trabalho no caminho rumo à metafísica. O estudo da linguagem é multi, inter e transdisciplinar: lingüística, semântica, pragmática, semiótica, histórica, sociolingüística, psicológica, antropológica, etc. Ela nos abre um leque sobre vários temas, pois ela é universal.
A partir de agora os conceitos estarão focalizados em outras fontes, tal como a Bíblia, por exemplo, visto que esta também é fonte de pesquisa filosófica.

C.3 A LINGUAGEM É MUITO MAIS QUE MERAS PALAVRAS

Quando se fala em Linguagem, de imediato e erroneamente, entende-se como a capacidade de falar e dizer algo, criando significados, compreensões e incompreensões. Linguagem não é isso, pois mesmo aqueles que são mudos têm a capacidade de se expressarem, fazendo assim uso da linguagem.
As convenções de significados servem somente para as palavras, pois mesmo antes da escrita surgir a Linguagem já existia porque, como vimos anteriormente, ela é o princípio, ou seja, originária. E ainda, o termo “linguagem” não é nem significa a mesma coisa que idioma, pois o idioma é uma convenção peculiar de uma região, de uma época, de um povo e se forma e se transforma de acordo com os processos históricos, ao passo que a Linguagem é comum a todos, é uma realidade universal e necessária para os homens de todos tempos e lugares.
A Linguagem não é uma mera forma de comunicação convencional em que suas características variam de acordo com o uso e o costume de cada povo, exigindo assim regras num jogo de linguagem. Portanto, a Linguagem não é somente uma simples relação entre o sujeito e o objeto, a Linguagem existe independente dessa relação e a sua totalidade não está no seu uso.
A Linguagem se manifesta de diversos modos: tanto pela escrita ou grafia (grajema) como pela fala (jonema), música, gestos, figuras, até mesmo na natureza (jisi?) a Linguagem está presente. A Linguagem se faz presente também no corpo humano, ela não está restrita nele, mas se faz presente, por isso acredito que alguns estudiosos chegam a utilizar a expressão linguagem corporal. Pois de fato, todas as partes do corpo humano são utilizadas para transmitir informações, os olhos, por exemplo, dizem os psicólogos, são os mais importantes, pois podem transmitir variações muito sutis. Os nossos atos, o nosso modo de viver, as roupas que vestimos também comunicam, e muitas vezes dizem quem somos ou que fazemos, sem que profiramos uma só palavra, isso acontece porque a Linguagem não se restringe somente a comunicação verbal nem se limita apenas às artes ou às palavras, ela está presente em tudo e em todos.
Por ser universal, a Linguagem se faz presente de várias formas, cito aqui a música, por exemplo. A música para o homem primitivo era considerada um presente dos deuses, uma Linguagem sobrenatural destinada a facilitar a manifestação de poderes sobrenaturais. Hoje essa mística perdeu seu sentido, pois os barulhos são tantos que não sabemos mais o que é música.
O homem primitivo interpretava os sons da natureza (jisi?) como a voz dos deuses. Essa Linguagem por meio da música se aprimora cada vez mais. No Ocidente, Pitágoras costuma ser considerado o pai da teoria musical, a qual foi por ele relacionada à matemática, outro meio por onde a Linguagem se manifesta. A música sempre esteve presente na vida do ser humano, tal como a Linguagem. Platão diz que somente a música é capaz de nos aproximar do Bem/Belo (deus), pois ela é a mais abstrata das artes, ao passo que a pintura se encontra mais distante da beleza em si, pois essa é apenas uma cópia da cópia imperfeita do perfeito, daquilo que já existe.
A Linguagem não possui limites, pois é universal, está presente em todos os meios de comunicação, expressões, se faz presente no inteligível e no sensível, ao passo que a palavra possui limites e se faz presente apenas no sensível sob a condição de uma simples convenção. A Linguagem não é convenção, ao passo que a palavra sim. O ser humano é cercado de limites, tanto que há coisas que ele deseja dizer, mas não consegue, pois ele é limitado. Por não conseguir dizer ou expressar o que se deseja, o homem cai em grandes frustrações e angústias, sofre e, talvez, desemboca numa triste e tremenda crise existencial, tal como dizia Jean-Paul Sartre em sua filosofia.
A universalidade do Amor e da Linguagem confere ao silêncio o direito de também se manifestar e de se expressar, pois o silêncio não é um simples vão. O silêncio é que nos aproxima do Amor, contudo, não o silenciar das palavras, mas o silêncio interior, o silêncio da contemplação, e não o silêncio da Linguagem. As palavras e também o silêncio podem, muitas vezes, expressarem o desamor, o ódio, e tantos outros sentimentos que ofendem e “destroem” a alma do homem.
Wittgenstein diz que sobre “aquilo que não se pode falar, deve-se calar”, creio que esse silêncio forçado faz com que o indivíduo se desemboque em grandes inquietudes e angústias, pois a limitação que o Homem possui não permite, por exemplo, sequer que ele conceitue de modo satisfatório o que é Filosofia, e o que é Amor. Somos ricos de palavras, por tal motivo estamos rodeados de muitas opiniões e de poucas verdades.
Olhemos agora para dois sagrados e santos personagens bíblicos: Nossa Senhora, a Sempre Virgem Maria e o Glorioso São José, esposo de Maria. Notemos que na Bíblia não há uma palavra dita por São José, entretanto, ainda hoje é possível “ouvir o grito do seu silêncio”, o grito do seu exemplo de vida, o grito da sua santidade. O silêncio que diz muito sem dizer uma palavra.
O silêncio sempre acompanhou o Homem, sempre comunicou algo, às vezes, expressa mais que várias palavras. O silêncio, talvez, seja a “linguagem” que todos entendem. Talvez, ainda, o silêncio esteja mais próximo do ?????, portanto, para silenciar o silêncio é necessário silenciar todas as extensões da Linguagem, ou seja, não é possível silenciar o silêncio. Lembremos que a morte pode silenciar o indivíduo humano, mas não a Linguagem, pois ela é imutável.
Mesmo cercado de palavras (paixões) o homem é capaz de se retirar para o silêncio, mas não qualquer silêncio e sim o silêncio interior (Amor, Linguagem). Esse silêncio é virtude para uns, incompreensão para alguns e loucura para outros. Para compreendermos o silêncio é necessário haver uma abertura de coração, adesão ao mistério do Amor. Essa adesão se inicia quando passamos a estar de bem conosco, com Deus e com o próximo e não quando buscamos justificavas na empiria.
Aos olhos da sociedade atual também é loucura, difícil de compreender e acreditar que alguém deixa tudo para seguir uma vida religiosa, como a sacerdotal, por exemplo. Este mistério do Amor divino é incompreensível, mesmo para quem se entrega a ele. Sabemos que não merecemos o Amor de Deus, mas Ele nos ama. E nos ama com Amor incondicional, como diz o profeta Isaias. O Amor é como o Sol, brilha para todos, bem como é a Linguagem.
Já Nossa Senhora, a Mãe do Amor, disse poucas palavras, mas não meras palavras. E sim palavras de humildade, que nos leva a refletir sobre o Amor, principalmente o amor cristão, o Amor humano. Palavras que cumprem plenamente a vocação de tudo dizer a partir de um calmo e sereno silêncio. Foi no ventre de Nossa Senhora que o Verbo – Deus (?????, o verbo divino) – se fez carne. Esse Amor não nasceu no barulho nem na agitação, mas no silêncio da noite fria e calma, tendo como único ser humano presente Nossa Senhora, a Sempre Virgem Maria. O Amor se faz homem para habitar entre os homens e, muitas vezes não o reconhecemos, pois o procuramos nos palácios da ciência, da psicologia ou simplesmente não acreditamos nele. Devemos procurar o Amor nas coisas simples.
Do mesmo modo, podemos observar que a Linguagem se encarna na palavra, nas artes, na matemática, na liturgia dos gestos, na fala, no silêncio, no olhar, em tudo. Em tudo a Linguagem se faz presente. A Linguagem se expressa, sobretudo, nas pessoas, pois a Linguagem é inata. O choro de um bebê, por exemplo, pode indicar fome e ao tomar consciência disso, o bebê, que ainda não sabe falar nem escrever, irá chorar toda vez que sentir fome, pois sabe que terá o alimento. O choro nesse caso é uma Linguagem. O choro também pode indicar tristeza, alegria, raiva, dor, etc.
A Linguagem se encarna em nós, independente de idade, sexo, raça, cor, religião ou visão política, etc. Em sua primeira carta encíclica Deus caritas est, o Santo Padre, Papa Bento XVI, também nos leva a uma reflexão acerca da problemática da Linguagem e não somente do Amor, ele escreve que “o termo ‘amor’ tornou-se, hoje, uma das palavras mais usadas e mesmo abusadas, à qual associamos significados completamente diferentes...” (Bento XVI, 2006, p. 7)

C. 4 RELAÇÃO ENTRE O AMOR E A LINGUAGEM

Chegamos a um ponto fundamental da reflexão acerca do Amor e da Linguagem, pois aqui se torna mais explicito a relação entre o Amor e Linguagem, deste modo fará sentido tudo aquilo que foi apresentado anteriormente.
Antes tudo, analisemos brevemente a semântica da palavra Amor, para que se perceba quão as palavras, a grafia e a pronúncia são utilizadas de maneiras diferentes, todavia, buscam o mesmo significado. Por exemplo, a palavra amor em grego é escrito e[??? ou aj??p? ou f???Èa; em latim amor ou caritas; em inglês love; em francês amour; em alemão liebe e em italiano amore.
O Amor promove a unidade entre diversas pessoas do mesmo e/ou de diferentes idiomas, tal como a Linguagem promove a unidade de diferentes palavras. As paixões unem os diversos tipos de sentimentos, todavia esses sentimentos mudam ao sabor do vento, igualmente são as palavras, elas mudam com o tempo, com as mudanças históricas e políticas, tal como vemos hoje com o idioma português. Já o Amor, como vimos, é supra-sensível e imutável, portanto, não se pode confundir o Amor com a Paixão. Do mesmo modo, não se pode confundir Linguagem com palavra.
A Linguagem, ao contrário das palavras, é constante, imutável e perene, tal como é o Amor, constante, imutável e perene. Por isso, creio que é inútil tentar modificar a essência do Amor ou da Linguagem, pois isso é impossível, visto que ambos são perenes. A única coisa que está ao alcance do Homem é a mudança de seu próprio comportamento diante do Amor, porque assim as relações sociais e comportamentais também mudarão. O Amor torna o Homem mais feliz, mais gentil e a convivência ao lado de outra ou de outras pessoas, o faz mais feliz, todavia, a felicidade não o isenta das dificuldades.
Conforme vimos até aqui o Amor foi tratado como um deus, mas pensemos agora no Deus judaico-cristão, o qual é universal. São João Evangelista Diz que Deus é Amor, por isso afirmo que o Amor é universal e essa universalidade faz com que o Amor habite em cada um de nós, seres humanos, mas, apesar disso, é impossível aprisioná-lo, pois, como já foi dito, é impossível aprisionar o infinito. Contudo, o egoísmo leva o Homem a inclinar-se “malevicamente” à tentativa de, em vão, aprisionar e trancar o Amor que habita em nós e, ainda, algumas pessoas possessivas e super-ciumentas exigem uma correspondência imediata do Amor do outro e exige ainda que o Amor que habita no outro seja exclusivamente seu, como se o Amor fosse maleável ao sabor fugaz dos anseios humanos. Não se pode esquecer que o Amor se faz presente na Liberdade.
Muitas pessoas, talvez, pelo fato de não tentarem viver verdadeiramente o enigma do Amor ou por serem tão mesquinhas, prepotentes, orgulhosas, auto-suficientes, e por estarem centradas em seu “mundinho” particular, não são capazes sequer de enxergarem o que têm diante dos olhos: a universalidade, o Amor. Por isso, principalmente os jovens, estão vulneráveis ao Eros, ou melhor, enxergam primeiramente o Eros e não o Agape e o Philia. Não que o Eros seja menos importante que o Agape e o Philia, pois também ele nos conduz a divindade. Os jovens facilmente se refugiam e se entregam gratuitamente aos apetites sensuais e carnais, desvalorizando o Philia (f???Èa) e o Agape (aj??p?). Os desejos desregrados serão infinitamente insaciáveis, por isso eles levam o Homem a se desembocar em vícios, sofrendo assim grandes frustrações, deixando de lado o Amor.
A paixão faz com que as pessoas enxerguem o Amor de modo ofuscado, em alguns casos ela chega a “cegar”. Portanto, o Amor não é paixão! O Amor é muito mais que um elo de sentimentos, muito mais que qualquer desejo ou êxtase de prazer. A paixão e as palavras são fugazes, ao passo que o Amor e a Linguagem são perenes.
O Amor se deixa identificar, porém não plenamente (por isso é um mistério) nem de uma só vez, mas gradativamente e somente o tanto que se precisa, por isso, o Homem manifesta o desejo de compreender e de se entregar sem reservas a outra pessoa, no anseio de se agarrar ao Amor do outro, para que o Amor que está presente na outra pessoa complete o que falta nele. Não que o Amor seja fragmentado, mas porque o Eros que habita no Homem o faz desejar ardentemente a união corporal, e quando não regado de Philia ou de Ágape o Homem cai na constante busca de prazeres no intuito de encontrar o Amor. Pois os sentidos são apenas sombras imperfeitas do Amor inteligível.
O presente trabalho não faz aqui uma apologia contra o Eros, mas sim contra a busca do prazer desregrado. O Eros nos conduz ao prazer da divindade, da procriação, da imortalidade, por meio da multiplicação da espécie.
Quando o Homem não consegue unir o seu Amor com o Amor de outra pessoa ele tende a cair em depressão e na loucura, tal como conta a lenda de Narciso, que ao contemplar seu rosto refletido na água, apaixonou-se por si próprio. A maior dificuldade em sentir a presença do Amor está no fato de as pessoas o procurar, geralmente, nas coisas complexas, ao passo que Ele (o Amor) se encontra na mais pura simplicidade, tanto na simplicidade exterior quanto simplicidade interior.
Apesar do Homem ser morada do Amor e ao mesmo tempo tender para o Amor, tal como toda palavra tende para a Linguagem, é difícil explicar ou conceituar o Amor, pois o Amor é universal e infinito, ao passo que o Homem é finito. Poderia até trocar a palavra difícil por impossível. É impossível que o finito, o fugaz e o mutável conceitue, de modo satisfatório, o Amor, o imutável e o infinito? Mas se fosse impossível ninguém tentaria defini-lo, pois seria impossível.
O Homem, muitas vezes, não consegue explicar muitas coisas que lhes são próprias, tal como o Amor, pois somente quem um dia verdadeiramente acreditou amar e ser amado pode se arriscar a inferir alguma opinião a respeito do Amor, contudo, sem alcançar a totalidade dessa definição. Por isso mesmo diante de tantos conceitos a angústia se faz presente no homem, pois quer sempre entender e alcançar o absoluto, porém não consegue. Quando definimos ou conceituamos algo estamos limitando esse algo, é como se cercássemos uma área. Será pois, possível cercar o Amor? Reformulando a pergunta: É possível limitar o infinito e o universal? Claro que não!
Também não se pretende fazer aqui um proselitismo ou uma exegese bíblica, até porque a análise proposta é filosófica e não teológica, mas nada impede que se faça uma reflexão teológica, conforme foi advertido na introdução, para que assim se compreenda melhor o objetivo deste trabalho.
O Amor e a Linguagem estão tão unidos que ambos não provém da mesma fonte originária de tudo, pois ambos formam uma única fonte, ambos são uno e não uma dualidade.
Na citação bíblica (1 Jo 4,16) – a qual já lemos anteriormente – o evangelista São João retoma o hino mais antigo que reproduz o relato da criação, em Gênesis 1,1-31, escandido pelos verbos: “Deus disse... e assim se fez”. Deus Criou o mundo através do seu Verbo, Deus é o próprio Verbo, a Linguagem criadora de tudo que existe. Heidegger, provavelmente inspirado nesse mesmo texto de São João, escreveu sobre a linguagem e utiliza o termo Linguagem originária para justificar o princípio de tudo.
No início do livro do Gênesis está escrito: “no princípio Deus criou o céu e a terra”. Deus disse: “Faça-se a luz!” E a luz foi feita. Deus disse: “Faça-se um firmamento entre as águas, e separe ele umas das outras” (Gn 1, 1-6). Ainda no início do livro do Gênesis vemos que o escritor sagrado procura contar as origens do Céu e da Terra, é uma verdadeira cosmogonia. Deus cria também o homem por meio da Linguagem, "Façamos o homem à nossa imagem e semelhança” (Gn 1, 26). “Deus criou o homem à sua imagem; criou-o à imagem de Deus, criou o homem e a mulher” (Gn 1, 27).
Alguns tradutores bíblicos utilizam o termo “Palavra” para se referirem a Deus, em grego ?????, em latim “Verbum”, todavia, nas Sagradas Escrituras devemos entender o termo “Palavra” como Linguagem, ou seja, como próprio Deus, para os cristãos. Mas aqui neste trabalho, conforme já foi apresentada, a expressão “palavra” se mostra muito limitada. Vimos também que, segundo Aristóteles, somente o homem possui o ?????, pode-se inferir, portanto que somente o homem pode manifestar o Amor, inclusive de modo racional.
O texto sagrado diz: “no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). O próprio texto explicita que Deus é o ?????, ou seja, Deus é a Linguagem.
O mesmo Verbo que criou tudo o que existe foi o mesmo que se encarnou no ventre da Sempre Virgem Maria. O Amor se materializa por Amor aos seres humanos. “Disse, então, Maria: Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra”. “E o Verbo se fez carne” (Lc 1, 38). Apesar do Amor fazer morada em nós, para que Ele se manifeste deve haver uma disposição livre e integral de nossa parte, tal como Maria teve para com o seu Senhor.
Finalmente, retornando o foco à filosofia. Hesíodo e Parmênides foram os primeiros a sugerir que o Amor é a força que move as coisas, que as une e as mantém juntas. Aristóteles e Santo Tomás de Aquino falam sobre o motor imóvel, de fato, é esse motor imóvel, o Amor, que move todas as coisas sem se mover. Deus é Amor. O Amor move as pessoas. Só podemos conhecer aquilo que existe, do mesmo modo só podemos amar aquilo que existe, aquilo que é. O Homem existe e, por isso, ele não pode negar o Amor, bem como não pode se distanciar da Linguagem.

CONCLUSÃO

Foi necessário elaborar um texto com tal tema para que se perceba como os gregos antigos enxergavam o Amor, e que ao longo dos tempos outras concepções foram surgindo de modo completamente diferente uma da outra. Do mesmo modo a concepção de Linguagem. Portanto, ler este trabalho as pessoas possam rever a sua concepção de Amor e de Linguagem.
O Banquete não foi apenas de aperitivos ou guloseimas, mas também de belos discursos a respeito do Amor. Deste modo espero que este trabalho não seja apenas mais um exercício de leitura, mas sim de reflexão de debate. Foi á luz de O Banquete procurei afirmar que o Amor e a Linguagem é Deus, na visão judaico-cristã, e que ambos não formam uma dualidade, mas sim uma unicidade, donde provém a multiplicidade de todos os bens.
Essa reflexão acerca do Amor e da Linguagem nos leva a perceber que o Homem não pode se lançar na fugacidade e que não precisa simplesmente definir o Amor de modo racional, mas que basta apenas acreditar na sua existência e viver conforme essa fé no Amor, desde que não seja um amor totalitário e opressor.
O intuito aqui não foi simplesmente mudar a concepção de Amor e de Linguagem, mas antes de tudo fazer com que se acredite no Amor e na Linguagem. Acreditar é um ato de fé, portanto, diante de tantas concepções de Amor se não houver um referencial seguro e imutável há um sério risco de nos perder diante do que sentimos, deixando com que a paixão guie o agir humano.
Antes de nos perguntar que é o Amor? Devemos nos perguntar eu acredito no Amor? Deste modo pode-se fazer uma reflexão como esta acerca do Amor. A respeito da Linguagem merecia um pouco mais de atenção filosófica, todavia também diante de tantos referenciais a que melhor sustenta a analogia realizada é o Evangelho de São João.
O ser humano é um mistério e mais misterioso é o Amor, a tentativa aqui foi buscar desvendar esse mistério numa visão judaico-cristã, tendo como ponto de partida a filosofia de Platão, o qual chama o Amor de Belo. E durante essa busca se tornou mais explicito e evidente que o Amor e a Linguagem se fazem presentes também nos sentimentos, mas não se originam neles, e a paixão quando não moderada ofusca o Amor que se faz presente no indivíduo, deixando a paixão reinar absolutamente na vida do indivíduo. O Amor é como o Sol, brilha para todos, tal como a beleza divina.
Por fim, nada mais belo que procurar a felicidade na amizade, especialmente na amizade divina. Mas também é importante cultivar a amizade humana. Por isso, está dedicado esse trabalho a todos os meus amigos, pois é na f???a que se inicia a subida dos degraus até a Beleza absoluta. Quem acredita no Amor acredita na amizade.

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